Existe vacina para diabetes tipo 1? Uma conversa sobre anticorpos e diabetes

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Será que faz sentido pensar em uma vacina para prevenir o diabetes tipo 1? Ronaldo Wieselberg explica em que ponto a Ciência se encontra neste assunto.

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Por Ronaldo Wieselberg*
Recentemente, em 2016, uma publicação científica mostrou a descoberta de um 5º anticorpo presente no sangue de pessoas com diabetes tipo 1, o anticorpo anti-tetraspanina 7. Muitas pessoas se encheram de esperança acreditando que, com esta descoberta, o caminho para uma vacina anti-diabetes estivesse mais curto, mas… será que é isso mesmo?

Neste texto, vamos relembrar alguns conceitos básicos sobre como funciona o sistema de defesa do corpo e qual é a sua relação com o diabetes. Depois, veremos o que os cientistas têm feito em relação à vacina para DM1. Mas, antes de explicar isso tudo, precisamos lembrar como o diabetes tipo 1 acontece…

vacina contra diabetes tipo 1

Vacina contra diabetes tipo 1: uma esperança real?

 

O QUE ESTÁ POR TRÁS DO DIABETES?

Nos três tipos mais comuns de diabetes – o tipo 1, o tipo 2 e o gestacional – os processos que ocorrem no corpo são bem diferentes. No tipo 2 e no diabetes gestacional, a resistência das células à ação da insulina e a produção diminuída desse hormônio pelo pâncreas têm papel crucial. Esses efeitos podem ser causados, por vezes, pela obesidade, por vezes por hormônios que a placenta produz.

Já no tipo 1, o que acontece é o chamado ataque autoimune. Essa expressão esquisita significa que o corpo da pessoa que desenvolve diabetes tipo 1 ataca-se a si próprio. Pode parecer estranho, mas esse ‘auto-ataque’ acontece em outras doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide. É como se uma verdadeira guerra civil tivesse como campo de batalha o organismo da pessoa. No caso do diabetes tipo 1, os leucócitos (guarde esse nome! Eles são os “soldados” do corpo) entendem que as células beta do pâncreas, produtoras de insulina, são inimigas… e que portanto precisam ser destruídas a todo custo!

DIABETES TIPO 1 = O PRÓPRIO CORPO ATACA AS CÉLULAS PRODUTORAS DE INSULINA

 

UMA GUERRA DENTRO DO CORPO – COMO RECONHECER O INIMIGO?

Alguns dos soldados do nosso sistema imune são altamente especializados, capazes de confeccionar armas super especiais, chamadas de anticorpos. Os anticorpos são armas químicas poderosas e muito específicas para cada inimigo. Isto é, cada anticorpo é produzido para atacar apenas um tipo específico de inimigo.

Nosso exército reconhece os inimigos baseado em ‘sinais’ que eles possuem, chamados de “epítopos”. Os epítopos são pedacinhos das células e cada epítopo é exclusivo de alguns tipos de células. Eles servem como partes de reconhecimento. São eles os responsáveis pelo corpo saber que nossas células são nossas, por exemplo, e que células invasoras são invasoras!

Acompanhe neste divertido vídeo, divulgado pela Associação Brasileira de Imunodeficiência, um resumo simples de como funciona nosso sistema imunológico.

Quando o corpo sofre alguma agressão – por exemplo, adquire alguma doença infecciosa, como uma gripe – libera muitos mensageiros avisando do acontecido. Esses mensageiros seriam como um boletim de ocorrência, no qual o corpo informa aos seus soldados qual é o agressor. E aí, os leucócitos, os soldados do corpo, vão atrás do inimigo. Para facilitar o combate, os linfócitos produzem armas que reconhecem os epítopos do agressor e o matam. Essas armas são os anticorpos que mencionamos anteriormente.

Podemos imaginar essa dinâmica da seguinte maneira: imagine que os leucócitos são seguranças de uma festa, que receberam a mensagem de permitir a passagem apenas de quem tivesse o crachá da cor certa – os epítopos seriam esses crachás. Se os nossos soldados observarem uma célula e reconhecem seu crachá, tudo bem, ela pode continuar viva! Mas se eles encontrarem uma célula com o ‘crachá’ da cor errada, partirão para o ataque e barrarão sua entrada!

O único problema é que, de vez em quando (ainda não sabemos o motivo exato!), o corpo produz anticorpos que atacam as próprias células. Algumas teorias indicam que epítopos muito parecidos seriam responsáveis por isso – por exemplo, um crachá “azul claro” do agressor e um crachá “azul escuro” das células do corpo seriam passados apenas como “azuis” para os leucócitos e linfócitos –, mas ainda não há explicação exata para o motivo desses ataques.

 

ENTENDENDO A NOVIDADE DA TETRASPANINA 7

Até pouco tempo atrás, os cientistas conheciam quatro anticorpos presentes em pessoas que estão com diabetes tipo 1: os anticorpos anti-ilhota, produzidos contra a célula beta produtora de insulina; anticorpos anti-insulina, produzidos contra a molécula de insulina produzida pelo corpo; anticorpos anti-GAD, produzidos contra uma enzima que existe em grande quantidade nas células beta; anticorpos anti-ZnT8, uma molécula presente nas bolsas que “estocam” a insulina dentro das células. Agora, foi descoberto o anticorpo anti-tetraspanina 7, produzido contra uma parte da célula beta. Seria como se os soldados do corpo recebessem a informação de destruir cinco tipos de crachá diferentes, todos eles, de alguma forma, relacionados à insulina.

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Atenção! Não deixem passar ninguém com crachá azul, amarelo, verde, vermelho e branco!

 

SABENDO DISSO, COMO FUNCIONARIAM AS VACINAS PARA DIABETES?

No sentido clássico do termo, uma vacina seria apresentar ao corpo versões ‘amenizadas’ dos “epítopos” ou “crachás” de agressores diferentes, para que os leucócitos aprendessem a defender o organismo. Porém, lembrando do que vimos acima, você talvez tenha concluído que não há como ensinar o corpo a se defender de uma guerra civil, gerada por epítopos do próprio corpo – e isso está certo. Assim, no sentido clássico, não haveria como criar vacinas para o diabetes tipo 1.

Mas… uma vez que os anticorpos (as ‘armas’ do nosso sistema de defesa que destroem os invasores) são feitas contra estas partes específicas das células, será que não haveria como bloquear essa produção? Isto é, se as células beta são destruídas pelos anticorpos, seria possível diminuir a atividade dos soldados que produzem as armas e, assim, mantê-las vivas? Ou então fazer com que os soldados não reconheçam os crachás das nossas células saudáveis, e então não produzam anticorpos?

 

ESTRATÉGIAS PARA UMA VACINA 

O uso de corticoides – as substâncias mais comuns para diminuir a atividade dos leucócitos – foi tentado no passado em casos de diabetes tipo 1. Porém, se por um lado eles aumentam a glicemia, por outro também favorecem a liberação de mais insulina. Assim, ao tentar “diminuir a atividade” dos soldados, os corticoides aumentam a fúria do ataque ao liberar mais “crachás” reconhecidos como sendo de invasores!

O uso de outros imunossupressores traria, além de efeitos adversos como o visto acima, uma baixa total das defesas do corpo. Com isso, outros invasores – dessa vez estamos falando de invasores verdadeiros, como bactérias e vírus potencialmente mortais! – poderiam invadir o organismo sem resistência alguma.

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Espero que não me encontrem aqui embaixo…!

Já “esconder os crachás” é uma idéia interessante. Recentemente, quando se falava da vacina contra o vírus zika, falou-se em “bloquear” a parte da célula que o vírus utilizava para invadir o organismo, e assim, impedir que ele se desenvolvesse e se multiplicasse. Isso seria como “esconder” do organismo – ou do vírus – o crachá.

Se não há crachá para ser visto, os soldados passarão batidos – por não verem um “crachá” invasor, não reconheceriam a célula como alvo, e não a destruiriam. O único porém é que muitas dessas substâncias de reconhecimento são utilizadas para outras funções…

Por exemplo, se bloquearmos todos os cinco possíveis anticorpos, a enzima GAD deixaria de funcionar – uma vez que ela estaria “escondida” e “bloqueada”. A insulina também deixaria de funcionar (já pensou?), o que seria um prejuízo terrível para o organismo. Lá no pâncreas, as bolsas que estocam insulina não seriam abertas, e as ilhotas deixariam, virtualmente, de existir no organismo, uma vez que seu “crachá” nunca mais seria visto. E sabendo que a produção de insulina em quem tem diabetes é reduzida ou inexistente, o custo para impedir o desenvolvimento do diabetes tipo 1 seria…

…desenvolver o diabetes tipo 1 com o uso da vacina!

Paradoxal. E ainda que funcionasse, o diabetes tipo 1 é responsável por cerca de 10% dos casos totais de diabetes na população. Ainda que todos fossem curados, ainda restariam 90% dos casos, compostos quase que em sua totalidade por diabetes tipo 2, que não tem relação com autoimunidade.

 

PREVENÇÃO AINDA É O MELHOR REMÉDIO

Mais complicado ainda é perceber que as vacinas não restaurariam a produção de insulina de quem já tem diabetes tipo 1. Apenas preveniria o surgimento de novos casos, isso se não desenvolvesse diabetes por outros mecanismos…

…e tristemente, não preveniria o aparecimento de diabetes tipo 2 ou gestacional no futuro.

habitos saudaveis praticar esportes com os amigos

O diabetes tipo 2 é o único tipo que pode ser prevenido. Levar uma vida mais ativa é um dos principais fatores que ‘fortalecem’ o corpo contra o desenvolvimento da doença.

Atualmente, existe apenas um tipo de diabetes que pode ser prevenido, e esse é o diabetes tipo 2. Tristemente, ele ainda é o tipo existente em maior quantidade e em franco crescimento na população mundial.

Práticas como alimentação saudável e equilibrada e exercício físico regular são as maneiras que temos para prevenir o diabetes tipo 2. Estes hábitos – como se não bastasse! – ainda controlam o peso, diminuem a chance de eventos cardiovasculares e de hipertensão, além de serem muito mais divertidos! Por que esperar uma vacina tão restrita, se podemos fazer muito mais com menos?

A prevenção depende de nós mesmos, a cada dia. Não de uma vacina milagrosa.

Até a próxima!

 

ronaldo wieselberg perfil diabeticoolRonaldo José Pineda Wieselberg tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.
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