A História do Diabetes – Parte 2 – de uma Decepção Amorosa

1

Acompanhe as aventuras pra lá de atribuladas de um cientista empenhado em achar as causas da doença na segunda parte da História do Diabetes!

POR RONALDO WIESELBERG

No último artigo, contei como o diabetes era visto até o fim do século XIX. Então, em 1891, nasceu o canadense Frederick Grant Banting, que seria o homem por trás de um milagre científico.

Frederick Grant Banting diabetes

O bonitão Dr. Frederick Grant Banting, ou “Fred” para os íntimos.

Frederick Banting era filho de um fazendeiro, o mais novo de cinco irmãos, e nasceu em Alliston, no Canadá. Uma cidadezinha rural, para falar a verdade. Ele cursou as escolas públicas da cidade, e, quando terminou os estudos, decidiu entrar para o exército canadense.

Bem, ele não conseguiu ingressar nas forças armadas pois sua visão era péssima. Decidiu, então, cursar uma faculdade. Escolheu o curso de Teologia, na Universidade de Toronto. Rapidamente, porém, percebeu que aquela não seria uma boa escolha para ele e se transferiu para o curso de Medicina, na mesma universidade.

Formou-se em 1916, e foi enviado à Primeira Guerra Mundial, na Europa, uma vez que a necessidade de médicos no campo de batalha era crescente. Ali, além de se apaixonar pela ortopedia, ele foi ferido em batalha e, mesmo ferido, passou dezesseis horas atendendo soldados, até que outro médico o amarrou à cama para que ele não prejudicasse a si mesmo.

Depois da guerra, Banting era um médico condecorado pelo exército canadense. Porém, isso não adiantou muito. A verdade é que a vida de Banting era uma sucessão de erros e escolhas que acabavam dando errado.

Banting tinha uma namorada desde antes da guerra, chamada Edith. Ele havia prometido, antes da guerra, se casar com ela quando tivesse condições de sustentá-la. Porém, após a guerra, Banting não conseguia encontrar emprego.

Durante algum tempo, ele trabalhou como médico residente no Hospital para Crianças Doentes de Toronto (Toronto’s Hospital for Sick Children), junto de alguns médicos que conheceu nas trincheiras. Ele não foi convidado a permanecer como médico, depois de algum tempo, e teve que deixar o hospital.

Nesse meio tempo, Edith tinha se formado na universidade e estava se destacando no mundo acadêmico como linguista e professora. Frederick, por outro lado, estava comendo o pão que o diabo amassou com farinha estragada. Sem emprego, ele havia torrado suas últimas economias em um anel de noivado para Edith.

A coisa é que Edith tentou entender Frederick. Ela se dispôs, inclusive, a sustentá-lo até que ele estabelecesse uma carreira sólida como médico – coisa raríssima no começo do século XX! – mas ele não aceitou, motivado por seu orgulho. Estando em cidades distantes, Edith prosperando e Frederick cada vez mais sem saída, o relacionamento deles começou a dar sinais de problemas.

Durante duas vezes, Edith devolveu o anel de noivado para Frederick. Ele tentou uma atitude de quase desespero e comprou uma casa, no norte do estado de Toronto, em uma cidadezinha chamada London. Ele esperava que, tendo uma casa, que também serviria como consultório, seria mais fácil para Edith decidir se mudar para perto dele, e assim, cumprir a promessa de casamento. A casa foi comprada com dinheiro que Frederick emprestou do próprio pai, num total de 7800,00 dólares canadenses – nessa época, essa era uma soma bastante grande de dinheiro!

A terceira vez que Edith e Fred romperam o noivado, foi definitiva. Ele pediu que ela devolvesse o anel de noivado e enterrou no jardim de casa, para que não pudesse mais entregá-lo nem voltar atrás.

Com suas consultas, Fred conseguia dinheiro suficiente para não morrer de fome. No primeiro mês, conseguiu quatro dólares – sim, QUATRO dólares – de um alcoólatra desesperado. Naquela época, de Lei Seca, a única maneira de conseguir álcool por meios legais era com prescrição médica.

No segundo mês, conseguiu 37 dólares. No terceiro mês, 48 dólares. No quarto mês, 66 dólares. A situação estava crítica.

Pobre Fred. Médico desiludido, sem companheira, empobrecido, com terrores da guerra. Como este homem se tornaria uma das maiores personalidades do mundo?

Eis que, então, surgiram algumas oportunidades. Uma delas veio do professor Frederick Miller, da Universidade de Toronto, ofereceu a Banting um cargo de professor de Fisiologia e Cirurgia. A verdade é que Banting não era muito qualificado para essas aulas, mas o aumento de oito dólares semanais no salário foi o suficiente para que ele garantisse a Miller que sempre estaria à frente dos alunos. Banting aceitou temporariamente o cargo.

A outra oportunidade era viajar com uma companhia petrolífera para o norte do Canadá, em busca de novos poços de petróleo. Esta opção foi o “chamado selvagem” que Fred sempre quis, e ele estava tentado a aceitá-la em definitivo.

O irmão mais velho de Fred, Ken Banting, foi enviado pela família com a triste missão de botar juízo na cabeça do mais novo. É claro que, sendo ele fazendeiro, como o pai, não aceitou bem a notícia de que Fred tinha rompido definitivamente o noivado e venderia a casa para, provavelmente, viajar com a companhia petrolífera. Ele, então, pressionou o irmão mais novo para que tomasse vergonha na cara e vendesse, também, o anel de noivado, e assim pagasse a dívida com o pai.

casa de Banting diabetes

Em algum lugar deste quintal, Banting procurava um anel durante a madrugada. A casa pode ser visitada, até hoje, em 442 Adelaide Street N., London, Canadá.

Enfim, podemos ver, agora, o glamuroso Dr. Frederick Banting escavando o chão do quintal, às onze da noite do dia 30 de outubro de 1920. Ele já tinha usado três fósforos para manter a maldita vela acesa, mas parecia que aquela chama tremeluzente piorava as coisas. A procura pelo anel estava demorando um bocado, e ele ainda não havia preparado a aula do dia seguinte – sobre a função do pâncreas no metabolismo de carboidratos.

Fred tinha um livro enorme sobre o assunto, e mal o tinha folheado. Endocrinologia, oras! Que coisa mais idiota, pensava ele. Passar a vida estudando algum sebo que veio de uma glândula escondida no corpo… Ele considerava isso ridículo! A beleza estava no corte, na sutura e em qualquer coisa que pudesse envolver um serrote em uma sala de operações. O estereótipo do ortopedista.

Por fim, ele encontrou o anel. Tendo uma das missões cumpridas, decidiu ler alguma coisa para a aula do dia seguinte.

Esbarrou, então, com um artigo – considerado por ele como extremamente chato – do norte-americano Moses Barron, chamado “A Relação das Ilhotas de Langerhans [hoje, chamadas de ilhotas pancreáticas] com o Diabetes com Referências Especiais a um Caso de Litíase Pancreática [pedra no ducto das enzimas do pâncreas]”.

Aqui, cabe uma explicação. A primeira, sobre o título dos artigos científicos: sim, todos são longos, aparentemente chatos e complicados, e sempre dizem exatamente sobre o que o artigo vai falar. A segunda, sobre o pâncreas.

Esse órgão, que fica atrás do estômago, é uma glândula de função dupla. Isso significa que ele produz secreções diferentes: algumas endócrinas – lançadas no sangue, e sendo chamadas de “hormônios” – e outras exócrinas – lançadas em uma cavidade, no caso, no começo do intestino delgado por um ducto, sendo chamadas, então, de “enzimas pancreáticas”. A parte que se refere ao diabetes, já se sabia que era a parte endócrina.

órgãos internos e diabetes

Todos nós somos assim, por dentro. A diferença é que as veias não são azuis… O pâncreas é aquela massa amarela em formato de “L” atrás do estômago.

O artigo lido dizia que, em um caso raro, um cálculo – uma pedra, enfim – havia entupido o ducto do pâncreas até o intestino delgado. Com isso, na necropsia – eca, quando abriram a barriga do morto! – perceberam que a parte exócrina – lembra, a parte das enzimas? – havia atrofiado. Apenas a parte das ilhotas pancreáticas havia restado, intacta. Então, concluía o autor, os achados eram consistentes com outros experimentos, e indicavam que alguma secreção das ilhotas pancreáticas tinha uma relação íntima com o diabetes.

Em algum momento depois da leitura do artigo, Fred caiu no sono, à mesa, em cima do livro. Às duas da manhã, ele acordou, sozinho.

Não, ele não estava babando no livro. Também não tinha um ladrão dentro de casa. A coisa é que uma ideia havia brotado em sua mente. Algo, não se sabe de onde, havia surgido e apontava para um caminho que, até onde ele sabia, ninguém havia percorrido antes.

Vinte e cinco palavras (em inglês), cheias de erros causados pelo sono.

Diabetis (sic) ligar ductos pancreáticos dos cachorros. Manter cachorros vivos até a parte exócrina atrofiar. Tentar isolar a secreção das ilhotas restantes e diminuir a glicosurea (sic).”

nota de Banting diabetes

A nota original do Fred, para que ele lembrasse de suas ideias.

Depois disso, ele decidiu dormir na cama. E dormiu até a manhã seguinte.

A ideia era mais ou menos a seguinte… Pela interrupção dos ductos do pâncreas, por cirurgia, Fred conseguiria que a parte exócrina do pâncreas atrofiasse ao longo do tempo, deixando apenas as ilhotas, intactas. Então, ele tentaria isolar o tecido preservado e a secreção que existisse ali. Essa secreção parecia aliviar os sintomas do diabetes em animais, e seria injetada em outro animal, que teria seu pâncreas removido cirurgicamente para que tivesse um diabetes “cirúrgico”.

Não era exatamente uma ideia nova. Lydia de Witt, em 1906, teve a mesma ideia. Um estudante, chamado Ernest Scott, tinha chegado à mesma conclusão de que as enzimas do pâncreas atrapalhavam a secreção quando injetadas. E o romeno Nicolas Paulesco já havia conseguido, inclusive, um extrato que ele chamou de “pancreína” que diminuía a glicemia de cachorros – o problema é que o trabalho de Paulesco não foi publicado em inglês.

Outro problema com os trabalhos anteriores é que eles falhavam em conseguir reproduzir o efeito em larga escala, o que impossibilitava testes estatísticos e a comprovação de resultados. Se Frederick Banting soubesse disso, provavelmente desistiria da ideia que teve.

Para nós, 382 milhões de pessoas com diabetes ao redor do mundo, a sorte é que Fred não sabia praticamente nada sobre o assunto.

~

No dia seguinte, após sua aula, Fred correu para falar sobre sua ideia para o professor Miller. Após acalmar Fred e entender sua ideia, os olhos de Miller brilharam. O professor John J. R. Macleod tinha sido recentemente contratado pela Universidade de Toronto, e era o chefe do departamento de Fisiologia. Macleod era uma das maiores autoridades em metabolismo no mundo, à época. E, para facilitar as coisas, o departamento tinha recebido um investimento de um milhão de dólares para pesquisa. Miller mandou Banting falar com Macleod.

Durante a conversa entre Fred Banting e John Macleod, o entusiasmo de Fred foi contido pelo academicismo de John. Alguns pontos que Fred sequer havia pensado pareciam barrar todo o trabalho. Não que John fosse mau caráter, mas, não havia motivos para investir em uma pesquisa que claramente fracassaria se não fosse bem estruturada. John Macleod, então, deu uma missão a Fred Banting: enviar uma proposta, por escrito, do que faria em seu trabalho, dos métodos e materiais que precisaria, e o que esperava encontrar com aquilo.

Frederick Banting e John MacLeod diabetes

Frederick Banting, à esquerda; John Macleod, à direita.

Aquilo desanimou muito nosso amigo Fred. A proposta da companhia petrolífera parecia ainda mais sedutora, porém, Fred escreveu uma carta com a proposta e colocou no correio. Três dias depois, John respondeu à proposta, autorizando Fred a começar a pesquisa.

Animado com a possibilidade de uma aventura no norte do Canadá, Fred não respondeu à autorização de John por um mês. Respondeu apenas quando soube que a companhia não levaria médico nenhum à expedição.

Quando o trabalho começou, Fred Banting foi apresentado a Charles Best – chamado carinhosamente de “Charley” –, um estudante de medicina que era fantástico com bioquímica, e John Macleod considerou a ideia de apresentá-lo aos modos cirúrgicos de Fred.

Ao longo do verão, Fred e Charley trabalharam bastante. Eles encontravam problemas com a anatomia dos cachorros – uma vez que só tinha estudado a anatomia humana! – e principalmente, com as condições de esterilização da sala de operações, que não eram as adequadas. Alguns dos cachorros morreram por infecções, outros por perda de sangue. Porém, conseguiram um sucesso.

Após realizar as técnicas necessárias, Fred e Charley conseguiram um pâncreas cujas ilhotas estavam intactas. Processaram-no e obtiveram um líquido castanho-rosado. Medindo a glicemia do cachorro com diabetes antes e depois da aplicação do extrato, perceberam que a glicemia era normalizada pelo extrato. Às seis da tarde, os dois trancaram o laboratório, e voltaram na manhã seguinte.

O cachorro estava em coma, pela falta das injeções do extrato. Assim que conseguiram medir a glicemia, perceberam que ela estava muito acima do normal, e o cachorro tinha uma infecção. Infelizmente, ele acabou não resistindo.

Repetiram o procedimento em outro cachorro, desta vez, passando a noite inteira com o animalzinho. Cada vez que o extrato era injetado, a glicemia caía. Depois de quatro dias vivo, sem o pâncreas, e recebendo as injeções, o cãozinho morreu com uma infecção.

Em 13 de agosto de 1921 – curiosamente, exatos 70 anos antes de eu nascer… – Fred e Charley realizaram um experimento com um “grupo controle”, técnica de estatística para confirmar os resultados de um experimento, por exemplo. Retiraram os pâncreas de dois cachorros, e mantiveram um deles sem o extrato. O cãozinho sem extrato morreu dois dias depois, enquanto a cadelinha com extrato não apenas sobreviveu, mas desenvolveu um afeto todo especial por Fred e Charley. Eles a chamaram de Marjorie.

Com a sobrevivência de Marjorie por mais de vinte dias, sem pâncreas – a cadelinha sobreviveu por mais de sessenta dias, até que o extrato se esgotasse –, recebendo o extrato, John considerou que a pesquisa estava correndo bem. Era hora de incluir a última parte da equipe: alguém que pudesse isolar a substância, que estava sendo chamada por Fred e Charley de “isletina”.

James Collip era professor de Farmacologia na Universidade de Toronto, e foi o indicado por John Macleod para isolar a substância do extrato pancreático. O curioso é que, a partir desse momento, Fred sentiu seu trabalho ameaçado por John.

Em vez de estabelever uma colaboração, Fred e Charley entraram em uma competição não-declarada com James para ver quem isolaria primeiro a substância então chamada de isletina. James ganhou a competição, e não tripudiou. Agradeceu a Fred, Charley e John a oportunidade de trabalhar e continuou estudando as propriedades da isletina.

Em dezembro de 1921, a isletina foi isolada.

Aquele Natal foi difícil para Fred. Enquanto John, Charley e James tinham suas famílias, esposas ou noivas, Fred estava sozinho. Estava praticamente zerado em termos financeiros. Nos meses anteriores, conseguira algum dinheiro fazendo algumas operações de amígdalas e vendendo alguns instrumentos cirúrgicos. Mas agora, não tinha mais nada.

Ele preparava suas modestas refeições em um fogareiro no laboratório, quase diariamente, a não ser aos domingos, quando conseguia um jantar grátis na paróquia de St. James, onde fora aluno. Ele não se atreveria a pedir dinheiro à família, uma vez que dificilmente entenderiam – passavam o ano planejando colheitas, nada relacionado a pesquisas abstratas!

Mesmo passando as festas de fim de ano sozinho, observando pela janela de seu quarto os compradores indo e voltando das lojas, quase à mercê do desespero, algo mantinha Fred firme em seu propósito. Ele sentia que sua missão de vida, de ajudar as pessoas, estava cada vez mais próxima…

banting macleod collip e herbert best diabetes

Os quatro “descobridores”: Banting, o idealizador; Macleod, o orientador; Collip, aquele que isolou; Best, aquele que forneceu a bagagem teórica a Banting.

 

ronaldo wieselberg perfil diabeticoolRonaldo José Pineda Wieselberg tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.
+ Leia mais textos de Ronaldo Wieselberg:
A História do Diabetes – Parte I” – 11.01.2014
Exageros no Fim do Ano – como aproveitar as Festas com saúde” – 31.12.2013
Revelado o segredo da água de quiabo” – 18.12.2013
Uma nova força lutando pelo diabetes” – 16.12.2013

 

Compartilhe!
  • Max Evangelista C. Almeida

    Essa história ainda não fechou,correto?