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	<title>James Collip | Diabeticool</title>
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	<description>Tudo sobre diabetes, dicas de saúde, medicamentos, insulinas, tratamentos e receitas!</description>
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		<title>A História do Diabetes – Parte 3 – Como usar a insulina?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação Diabeticool]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jan 2014 18:24:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ronaldo Wieselberg]]></category>
		<category><![CDATA[Elliot Joslin]]></category>
		<category><![CDATA[Frederick Allen]]></category>
		<category><![CDATA[Frederick Banting]]></category>
		<category><![CDATA[glicemia]]></category>
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		<category><![CDATA[história do diabetes]]></category>
		<category><![CDATA[Insulina]]></category>
		<category><![CDATA[James Collip]]></category>
		<category><![CDATA[Leonard Thompson]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na 3a parte da História do Diabetes, Ronaldo Wieselberg conta como foram os primeiros testes com a insulina e os excitantes dramas pessoais por trás das pesquisas! POR RONALDO WIESELBERG No último capítulo da nossa viagem conhecemos os dramas do Dr. Frederick Banting durante a descoberta da insulina, e como ele passou o Natal de &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Na 3a parte da História do Diabetes, Ronaldo Wieselberg conta como foram os primeiros testes com a insulina e os excitantes dramas pessoais por trás das pesquisas!</em><span id="more-6694"></span></p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>POR RONALDO WIESELBERG</strong></span></p>
<p>No último capítulo da nossa viagem conhecemos os dramas do Dr. Frederick Banting durante a descoberta da insulina, e como ele passou o Natal de 1921 sozinho, após o Dr. James Collip isolar a substância – <strong><a href="http://www.diabeticool.com/a-historia-do-diabetes-parte-2-de-uma-decepcao-amorosa/">como você pode ler aqui</a></strong>.</p>
<p>Enquanto isso, existiam alguns outros personagens no mundo do diabetes nessa época. Um deles era o Dr. Frederick Allen, um dos maiores especialistas em diabetes do mundo, juntamente com o Dr. Elliott Joslin. Enquanto Allen acreditava na terapia da inanição como a solução definitiva para o diabetes, Joslin acreditava que essa terapia era muito mais danosa aos pacientes do que benéfica, e sempre acreditou em educar o paciente para que ele soubesse o que evitar, enquanto restringia a alimentação de maneira mais “humana”.</p>
<p>Ao contrário do que possa se pensar, Allen tratou inclusive a filha de um dos Secretários de Estado – algo como Ministro das Relações Exteriores – dos Estados Unidos, na época. Inclusive, esse político, Charles Evans Hughes, visitou o Brasil por volta da época da descoberta da insulina!</p>
<p>Allen e Joslin não eram inimigos, muito pelo contrário. O fato de divergirem em muitas das opiniões alavancou muitos estudos que realizaram com pacientes, de maneira a entender melhor a doença. Allen, inclusive, tinha escrito, graças a essa relação, um livro que era considerado “a Bíblia do Diabetes”, na época, enquanto Joslin também tinha escrito um livro que era uma referência para médicos que tratavam diabetes.</p>
<figure id="attachment_6695" aria-describedby="caption-attachment-6695" style="width: 427px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6695" alt="elliott joslin and frederick allen diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/elliott-joslin-and-frederick-allen-diabetes.jpg" width="427" height="252" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/elliott-joslin-and-frederick-allen-diabetes.jpg 427w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/elliott-joslin-and-frederick-allen-diabetes-407x240.jpg 407w" sizes="(max-width: 427px) 100vw, 427px" /><figcaption id="caption-attachment-6695" class="wp-caption-text">Da esquerda para a direita, Elliott P. Joslin e Frederick M. Allen, à época, os dois maiores especialistas em diabetes do mundo.</figcaption></figure>
<p><span style="color: #008080;"><strong>UMA CONFERÊNCIA QUE MUDOU A HISTÓRIA</strong></span></p>
<p>Entre 28 e 30 de dezembro de 1921 – três dias depois do fatídico Natal de Banting – ocorreu o Encontro da Sociedade Americana de Fisiologia. A notícia da descoberta de uma substância que baixava a glicemia tinha corrido como fogo em palha seca. A equipe de Banting – composta, até então, por quatro pessoas: ele mesmo, Macleod, Best e Collip – tinha praticamente dobrado.</p>
<p>Esse aumento de pessoal era destinado a purificar o extrato e tornar possível o uso em seres humanos o mais rápido possível. Banting e sua equipe estavam começando a testar o extrato de pâncreas de boi e de porco, e os resultados estavam sendo bastante satisfatórios.</p>
<p>Durante a conferência, Banting se sentia muito nervoso. Ele nunca fora um acadêmico, sempre fora um homem prático. E agora, se via prestes a apresentar um trabalho revolucionário perante uma sociedade nacional. Por mais que ele tivesse assistido às palestras dos outros colegas para ganhar traquejo, os murmúrios que ouvia sobre “um trabalho revolucionário feito no Canadá por um tal de Dr. Banting” o deixavam cada vez mais ansioso.</p>
<p>Na sexta-feira – que, curiosamente, era 30 de dezembro, e não 13&#8230; – a sala de apresentações estava lotada. Frederick Allen estava lá, junto com Elliott Joslin. Alec Clowes, o representante da empresa farmacêutica Eli Lilly também estava lá, interessado nessa descoberta. A menor falha nos experimentos seria percebida por todos os especialistas ali.</p>
<p>Uma vez que nem Banting, nem Best eram membros da sociedade, Macleod começou a palestra. Sendo sincero, ele também percebeu que Banting estava tremendo feito vara verde, e não conseguiria falar diante daquele monte de médicos. Durante a introdução, o que chamou a atenção de Banting era que Macleod sempre falava em “nosso” trabalho – e cada vez que isso acontecia, ele se lembrava do calor infernal de agosto e setembro em que ele e Best trabalharam, enquanto Macleod estava sentado confortavelmente em sua mesa.</p>
<p>Macleod chamou Banting para falar sobre o trabalho, mas o nervosismo era tanto que, pouco a pouco, Fred foi emudecendo. No final, sua voz era um murmúrio, e ninguém percebeu quando a palestra tinha acabado. Apenas quando Macleod se levantou e agradeceu, houve uma rodada rápida de aplausos.</p>
<p>Enquanto os médicos cercaram Macleod, bombardeando-o com perguntas, Alec Clowes se aproximou de Banting e Best. Ele ofereceu, em nome da Eli Lilly Company todas as condições para a purificação e produção em massa do extrato. Macleod, por sua vez, recusou, uma vez que a Universidade de Toronto tinha um laboratório próprio, que iria fabricar a insulina para uso humano.</p>
<p>Banting viu isso como uma traição terrível. Não tendo dinheiro para se manter no congresso após a palestra, ele voltou na mesma noite, de trem, para Toronto. A noite inteira ele se remoeu, pensando no quão triste e vil era aquilo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>BRIGAS, UM OLHO ROXO E O PRIMEIRO USUÁRIO DE INSULINA</strong></span></p>
<figure id="attachment_6698" aria-describedby="caption-attachment-6698" style="width: 181px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6698" alt="Leonard Thompson diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/Leonard-Thompson-diabetes.jpg" width="181" height="237" /><figcaption id="caption-attachment-6698" class="wp-caption-text">O garotinho Leonard Thompson, primeiro diabético tipo 1 a ser tratado com insulina.</figcaption></figure>
<p>Em 11 de janeiro de 1922, Leonard Thompson, um menino canadense que à época consumia apenas 450 kcal diárias – o normal para um ser humano saudável é 2000 kcal – recebeu uma dose do mesmo extrato usado em cães – purificado ao máximo. Era a metade da dose que um cachorro de mesmo peso receberia, e por isso, a queda na glicemia foi inconclusiva. Parecia ter funcionado, mas ninguém arriscava o pescoço naquela ideia.</p>
<p>Em 14 de janeiro do mesmo ano, um artigo no Toronto Daily Star, o jornal mais importante da região, dizia, em letras garrafais “Trabalho em Diabetes mostra Sucesso Contra a Doença”. Novamente, Macleod usara os termos “nós” e “nosso trabalho”, o que enfureceu Banting.</p>
<p>Em 16 de janeiro, Collip conseguiu purificar a insulina, e foi dar as boas novas a Banting. De tão enfurecido que estava, Banting atirou Collip ao chão, gritando que agora, sim, a substância seria chamada de “soro de Collip”. Entristecido e desapontado, Collip foi pedir a demissão sumária de Banting. Porém, o reitor da universidade disse que a culpa era de Macleod, que não tinha conseguido um bom relacionamento com os membros da equipe.</p>
<p>Em 23 de janeiro, o mesmo Leonard Thompson recebeu uma dose do extrato purificado de Collip. A glicemia dele baixou – em valores utilizados hoje – de 520mg/dl para 120mg/dl.</p>
<p>Em 25 de janeiro, a equipe de Banting teve uma reunião. Banting parecia destroçado fisica e mentalmente. Collip tinha vestígios de um olho roxo. Macleod estava sob pressão da Eli Lilly, da reitoria da universidade, e até do presidente do Canadá. Best tentava segurar as pontas, mas nada estava dando certo. Todo o trabalho estava por um fio.</p>
<p>Em fevereiro, Banting sucumbiu às pressões. Entrou no laboratório e pegou uma garrafa de álcool 95%. Bebeu num béquer – o “copo” usado para os experimentos. Best o encontrou, praticamente desmaiado no laboratório, no dia seguinte, e não pôde fazer nada além de deitar o parceiro em uma cama. Banting era o pior inimigo de si mesmo.</p>
<p>Em março, com a publicação de dois artigos – tendo como autores Banting e Best, nada de Macleod ou Collip até o momento – em periódicos científicos respeitáveis, esperava-se um retorno de Banting. Ele não voltou. Best, então, foi procurá-lo.</p>
<p>Best encontrou Banting bêbado, em casa. Apesar dos apelos, Banting se recusava a voltar para a pesquisa. Best, então, pela primeira e única vez, deixou a raiva fluir. Gritou com Banting, arrancou o béquer de suas mãos e o arrebentou contra a parede. Gritou sobre as crianças que seriam salvas, e agora, sem Banting, morreriam sem a insulina. Com a discussão, Best disse que também sairia da pesquisa.</p>
<p>Na manhã seguinte, 1º de Abril, Banting acordou e viu o caderno de Best aos pés de sua cama. Ele se lembrou de alguns pontos da discussão e sentiu-se culpado pela saída provável de Best e por tudo o que tinha falado sob efeito do álcool.</p>
<p>Em 3 de abril, com a saída de Collip da Universidade de Toronto, Best assumia o departamento de Bioquímica, e registrava a patente da insulina, vendendo-a para a universidade pela soma simbólica de um dólar. Macleod reconheceu que errou com a Eli Lilly Company e com Banting.</p>
<p>Best foi o elo da corrente que não se partiu. Graças a ele, a pesquisa continuou.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>O &#8216;MILAGRE&#8217; DA INSULINA</strong></span></p>
<p>Allen e Joslin estavam deslumbrados com os resultados da insulina. Allen foi o médico que mais auxiliou os experimentos com pacientes em 1922, usando a insulina em 161 pacientes. A empresa Eli Lilly Company foi a primeira a conseguir um suprimento constante de insulina no mundo.</p>
<p>Em agosto de 1922, Allen fez o primeiro experimento com insulina em seus pacientes. Seis crianças, em coma, todas pesando menos da metade do que deveriam pesar. Injetou insulina na primeira criança, e nada aconteceu. Injetou insulina na segunda criança, e nada aconteceu. Nada na terceira. Nem na quarta. Nem na quinta. Quanto injetou a insulina na última criança, e estava pronto para dizer àquelas mães, sofridas, que nada mais restava, a primeira criança começou a acordar.</p>
<p>Um arrepio passou pela espinha do médico. Era quase como a ressureição de Lázaro, da Bíblia. Era um milagre da medicina. A “cura” tinha chegado. Diabetes não seria mais uma doença mortal.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>JUNTO À INSULINA, EIS A HIPOGLICEMIA!</strong></span></p>
<p>Joslin sentiu-se honrado com a possibilidade de usar a insulina. Durante o uso, dedicou-se, então, a estudar a insulina, seus efeitos e como poderia melhorara vida das pessoas com diabetes.</p>
<p>Então, surgiu, diante do uso da insulina, uma complicação ainda mais terrível: hipoglicemias. Com o uso indiscriminado da insulina, por vezes a glicemia caía abaixo dos níveis normais – hoje, sabemos que hipoglicemia é quando a glicemia cai abaixo de 70mg/dl – e até aquele momento, ninguém sabia da existência de hipoglicemias, quanto mais do tratamento.</p>
<p>Joslin foi o primeiro a sugerir o uso de suco de laranja – ótima fonte de açúcar! – como tratamento, e foi um padrão por muito tempo. Ele se tornou o maior especialista em diabetes do mundo, graças à sua disposição em estudar os efeitos daquela nova substância descoberta por Banting aplicados aos seus conhecimentos desenvolvidos junto com Allen.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>O MAIOR RECONHECIMENTO CIENTÍFICO</strong></span></p>
<p>Em setembro de 1922, Banting e Macleod foram indicados ao Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Sabendo que caso a hostilidade dentro da equipe fosse descoberta as chances seriam nulas, Banting fez o impossível para aguentar sua fúria.</p>
<p>Um dos cientistas que avaliaram a descoberta de Banting, August Krogh, voltou para a Dinamarca com a fórmula para fabricar a insulina. Ele fundou, então, a Nordisk Insulin Laboratorium, pioneira na Europa a produzir insulina.</p>
<p>Em 1923, Banting e Macleod foram laureados com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, pela descoberta da insulina. Foi o primeiro Prêmio Nobel do Canadá, e até hoje, a nota de 100 dólares canadenses mostra um frasco de insulina.</p>
<p>Banting, é claro, ficou furioso que Best fora esquecido, e dividiu sua parte do prêmio com ele. Macleod não teve outra saída senão dividir sua parte, também, com Collip.</p>
<figure id="attachment_6696" aria-describedby="caption-attachment-6696" style="width: 462px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6696" alt="nobel prize banting macleod diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/nobel-prize-banting-macleod-diabetes.jpg" width="462" height="632" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/nobel-prize-banting-macleod-diabetes.jpg 462w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/nobel-prize-banting-macleod-diabetes-175x240.jpg 175w" sizes="(max-width: 462px) 100vw, 462px" /><figcaption id="caption-attachment-6696" class="wp-caption-text">O diploma que confere o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1923 a Frederick G. Banting e John J. R. Macleod.</figcaption></figure>
<p>Em 1929, Allen sofreu um revés financeiro incalculável. Suas economias estavam em ações da Bolsa de Nova York, que quebrou. Seu instituto para o estudo do diabetes faliu, e ele caiu no esquecimento.</p>
<p>Joslin dedicou sua vida ao tratamento do diabetes, educação e pesquisa, fundando o Joslin Diabetes Center, afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard. Ele também fundou o primeiro acampamento para jovens com diabetes, modelo seguido inclusive no Brasil, com o Acampamento ADJ-Unifesp-NR, em São Paulo e com o Diabetes Weekend, em Minas Gerais.</p>
<p>Joslin manteve o registro dos exatos 58 784 pacientes que tratou ao longo de sua vida. Sua frase mais famosa foi reproduzida milhares de vezes ao redor do mundo:</p>
<p>“Educação não é parte do tratamento do diabetes. Educação É o tratamento.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>O QUE ACONTECEU COM CADA UM DOS PERSONAGENS</strong></span></p>
<p>Charles Best continuou seus estudos em Fisiologia, descobrindo inclusive a histaminase e a lecitina, duas substâncias importantes do metabolismo, e estudou os efeitos da colina no organismo. Ele substituiu Macleod como professor de Fisiologia na Universidade de Toronto aos 29 anos.</p>
<p>James Bert Collip perdoou Banting pelos incidentes, e eles acabaram se tornando bons amigos. Ele continuou suas pesquisas em endocrinologia, e conseguiu trabalhar isolando o paratormônio, um hormônio secretado pels paratireoides, e o hormônio adrenocorticotrófico, secretado pela hipófise. Ele foi o sucessor de Banting no Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá.</p>
<p>John James Rickard Macleod sofreu em silêncio o resultado da ira de Banting. Conforme a popularidade de Banting crescia, a de Macleod caía. Em 1928 ele deixou a Universidade de Toronto, voltando para a Escócia, sua terra natal, como Professor Pleno de Fisiologia na Universidade de Aberdeen. Ele nunca comentou os anos que passou no Canadá.</p>
<p>Frederick Grant Banting fundou a Fundação Banting de Pesquisa com o dinheiro do Prêmio Nobel, que ajudou, inclusive, a projetar partes do traje anti-gravidade dos astronautas americanos, além de guerra química e biológica. Em 1941, mesmo contra os apelos do governo do Canadá, ele embarcou em um avião para a Inglaterra, para atuar como médico durante a Segunda Guerra Mundial. O avião caiu momentos após a decolagem, e Banting não suportou os ferimentos, morrendo ao lado de Collip, no hospital, naquela mesma noite.</p>
<p>Até hoje, cartas e postais são endereçados ao Dr. Frederick Banting, aquele que teve a ideia e lutou contra todas as dificuldades para descobrir aquela que foi a salvação de todas as pessoas com diabetes ao redor do planeta.</p>
<figure id="attachment_6697" aria-describedby="caption-attachment-6697" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6697" alt="postal card to doctor banting insulin diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/postal-card-to-doctor-banting-insulin-diabetes.jpg" width="600" height="482" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/postal-card-to-doctor-banting-insulin-diabetes.jpg 600w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/postal-card-to-doctor-banting-insulin-diabetes-299x240.jpg 299w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-6697" class="wp-caption-text">Postal para o Dr. Banting, datado de 1924. Diz “Caro Dr. Banting, eu sou uma garotinha no Texas que está recebendo Iletina [o primeiro nome comercial da Insulina]. Ela está fazendo eu me sentir melhor e eu estou muito feliz. Eu queria agradecer ao senhor. Um feliz Natal. Betsy Adylance, Galveston, Texas”.</figcaption></figure>O tratamento do diabetes não se restringiu apenas à insulina. Ele ainda dependia de testes de urina, e agora, o perigo de hipoglicemia era constante. Outros médicos se dedicaram muito às pesquisas, inclusive porque alguns pacientes pareciam reagir mal à insulina&#8230; Mas isso é uma história para o nosso próximo capítulo&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<div style="background-color: #b8d4e2; border: 2px solid; border-color: #6E7F88; padding: 10px;"><img loading="lazy" class="alignright size-full wp-image-6190" alt="ronaldo wieselberg perfil diabeticool" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2013/12/ronaldo-wieselberg-perfil-diabeticool.jpg" width="166" height="167" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2013/12/ronaldo-wieselberg-perfil-diabeticool.jpg 166w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2013/12/ronaldo-wieselberg-perfil-diabeticool-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 166px) 100vw, 166px" /><span style="color: #424c52;"><strong>Ronaldo José Pineda Wieselberg</strong></span> tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.</div>
<div style="background-color: #dbe9f0; border: 2px solid; border-color: #6E7F88; padding: 10px;"><strong>+ Leia mais textos de Ronaldo Wieselberg:</strong><br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/a-historia-do-diabetes-parte-2-de-uma-decepcao-amorosa/">A História do Diabetes &#8211; Parte II</a>&#8221; &#8211; 20.01.2014<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/a-historia-do-diabetes-parte-1-da-antiguidade-ao-seculo-xix/">A História do Diabetes &#8211; Parte I</a>&#8221; &#8211; 11.01.2014<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/exageros-no-fim-do-ano/">Exageros no Fim do Ano &#8211; como aproveitar as Festas com saúde</a>&#8221; &#8211; 31.12.2013<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/revelado-o-segredo-da-agua-de-quiabo/">Revelado o segredo da água de quiabo</a>&#8221; &#8211; 18.12.2013<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/uma-nova-forca-lutando-pelo-diabetes-por-ronaldo-wieselberg/">Uma nova força lutando pelo diabetes</a>&#8221; &#8211; 16.12.2013</div>
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		<title>A História do Diabetes – Parte 2 – de uma Decepção Amorosa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação Diabeticool]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jan 2014 13:45:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ronaldo Wieselberg]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Herbert Best]]></category>
		<category><![CDATA[diabetes]]></category>
		<category><![CDATA[Frederick Banting]]></category>
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		<category><![CDATA[James Collip]]></category>
		<category><![CDATA[John Macleod]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acompanhe as aventuras pra lá de atribuladas de um cientista empenhado em achar as causas da doença na segunda parte da História do Diabetes! POR RONALDO WIESELBERG No último artigo, contei como o diabetes era visto até o fim do século XIX. Então, em 1891, nasceu o canadense Frederick Grant Banting, que seria o homem &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Acompanhe as aventuras pra lá de atribuladas de um cientista empenhado em achar as causas da doença na segunda parte da História do Diabetes!</em><span id="more-6610"></span></p>
<p><span style="color: #008080;"><strong>POR RONALDO WIESELBERG</strong></span></p>
<p><a title="A História do Diabetes – Parte 1 – da Antiguidade ao Século XIX" href="http://www.diabeticool.com/a-historia-do-diabetes-parte-1-da-antiguidade-ao-seculo-xix/">No último artigo</a>, contei como o diabetes era visto até o fim do século XIX. Então, em 1891, nasceu o canadense <strong>Frederick Grant Banting</strong>, que seria o homem por trás de um <strong>milagre científico</strong>.</p>
<figure id="attachment_6613" aria-describedby="caption-attachment-6613" style="width: 480px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6613" alt="Frederick Grant Banting diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/Frederick-Grant-Banting-diabetes.jpg" width="480" height="376" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/Frederick-Grant-Banting-diabetes.jpg 480w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/Frederick-Grant-Banting-diabetes-306x240.jpg 306w" sizes="(max-width: 480px) 100vw, 480px" /><figcaption id="caption-attachment-6613" class="wp-caption-text">O bonitão Dr. Frederick Grant Banting, ou “Fred” para os íntimos.</figcaption></figure>
<p>Frederick Banting era filho de um fazendeiro, o mais novo de cinco irmãos, e nasceu em Alliston, no Canadá. Uma cidadezinha rural, para falar a verdade. Ele cursou as escolas públicas da cidade, e, quando terminou os estudos, decidiu entrar para o exército canadense.</p>
<p>Bem, ele não conseguiu ingressar nas forças armadas pois sua visão era péssima. Decidiu, então, cursar uma faculdade. Escolheu o curso de Teologia, na Universidade de Toronto. Rapidamente, porém, percebeu que aquela não seria uma boa escolha para ele e se transferiu para o curso de Medicina, na mesma universidade.</p>
<p>Formou-se em 1916, e foi enviado à Primeira Guerra Mundial, na Europa, uma vez que a necessidade de médicos no campo de batalha era crescente. Ali, além de se apaixonar pela ortopedia, ele foi ferido em batalha e, mesmo ferido, passou dezesseis horas atendendo soldados, até que outro médico<strong> o amarrou à cama</strong> para que ele não prejudicasse a si mesmo.</p>
<p>Depois da guerra, Banting era um médico condecorado pelo exército canadense. Porém, isso não adiantou muito. A verdade é que a vida de Banting era uma sucessão de erros e escolhas que acabavam dando errado.</p>
<p>Banting tinha uma namorada desde antes da guerra, chamada Edith. Ele havia prometido, antes da guerra, se casar com ela quando tivesse condições de sustentá-la. Porém, após a guerra, Banting não conseguia encontrar emprego.</p>
<p>Durante algum tempo, ele trabalhou como médico residente no Hospital para Crianças Doentes de Toronto (Toronto’s Hospital for Sick Children), junto de alguns médicos que conheceu nas trincheiras. Ele não foi convidado a permanecer como médico, depois de algum tempo, e teve que deixar o hospital.</p>
<p>Nesse meio tempo, Edith tinha se formado na universidade e estava se destacando no mundo acadêmico como linguista e professora. Frederick, por outro lado, estava comendo o pão que o diabo amassou com farinha estragada. Sem emprego, ele havia torrado suas últimas economias em um anel de noivado para Edith.</p>
<p>A coisa é que Edith tentou entender Frederick. Ela se dispôs, inclusive, a sustentá-lo até que ele estabelecesse uma carreira sólida como médico – coisa raríssima no começo do século XX! – mas ele não aceitou, motivado por seu orgulho. Estando em cidades distantes, Edith prosperando e Frederick cada vez mais sem saída, o relacionamento deles começou a dar sinais de problemas.</p>
<p>Durante duas vezes, Edith devolveu o anel de noivado para Frederick. Ele tentou uma atitude de quase desespero e comprou uma casa, no norte do estado de Toronto, em uma cidadezinha chamada London. Ele esperava que, tendo uma casa, que também serviria como consultório, seria mais fácil para Edith decidir se mudar para perto dele, e assim, cumprir a promessa de casamento. A casa foi comprada com dinheiro que Frederick emprestou do próprio pai, num total de 7800,00 dólares canadenses – nessa época, essa era uma soma bastante grande de dinheiro!</p>
<p>A terceira vez que Edith e Fred romperam o noivado, foi definitiva. Ele pediu que ela devolvesse o anel de noivado e enterrou no jardim de casa, para que não pudesse mais entregá-lo nem voltar atrás.</p>
<p>Com suas consultas, Fred conseguia dinheiro suficiente para não morrer de fome. No primeiro mês, conseguiu quatro dólares – sim, QUATRO dólares – de um alcoólatra desesperado. Naquela época, de Lei Seca, a única maneira de conseguir álcool por meios legais era com prescrição médica.</p>
<p>No segundo mês, conseguiu 37 dólares. No terceiro mês, 48 dólares. No quarto mês, 66 dólares. A situação estava crítica.</p>
<p>Pobre Fred. Médico desiludido, sem companheira, empobrecido, com terrores da guerra. <strong>Como este homem se tornaria uma das maiores personalidades do mundo</strong>?</p>
<p>Eis que, então, surgiram algumas oportunidades. Uma delas veio do professor Frederick Miller, da Universidade de Toronto, ofereceu a Banting um cargo de professor de Fisiologia e Cirurgia. A verdade é que Banting não era muito qualificado para essas aulas, mas o aumento de oito dólares semanais no salário foi o suficiente para que ele garantisse a Miller que sempre estaria à frente dos alunos. Banting aceitou temporariamente o cargo.</p>
<p>A outra oportunidade era viajar com uma companhia petrolífera para o norte do Canadá, em busca de novos poços de petróleo. Esta opção foi o “chamado selvagem” que Fred sempre quis, e ele estava tentado a aceitá-la em definitivo.</p>
<p>O irmão mais velho de Fred, Ken Banting, foi enviado pela família com a triste missão de botar juízo na cabeça do mais novo. É claro que, sendo ele fazendeiro, como o pai, não aceitou bem a notícia de que Fred tinha rompido definitivamente o noivado e venderia a casa para, provavelmente, viajar com a companhia petrolífera. Ele, então, pressionou o irmão mais novo para que tomasse vergonha na cara e vendesse, também, o anel de noivado, e assim pagasse a dívida com o pai.</p>
<figure id="attachment_6614" aria-describedby="caption-attachment-6614" style="width: 460px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6614" alt="casa de Banting diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/casa-de-Banting-diabetes.jpg" width="460" height="340" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/casa-de-Banting-diabetes.jpg 460w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/casa-de-Banting-diabetes-325x240.jpg 325w" sizes="(max-width: 460px) 100vw, 460px" /><figcaption id="caption-attachment-6614" class="wp-caption-text">Em algum lugar deste quintal, Banting procurava um anel durante a madrugada. A casa pode ser visitada, até hoje, em 442 Adelaide Street N., London, Canadá.</figcaption></figure>
<p>Enfim, podemos ver, agora, o glamuroso Dr. Frederick Banting escavando o chão do quintal, às onze da noite do dia 30 de outubro de 1920. Ele já tinha usado três fósforos para manter a maldita vela acesa, mas parecia que aquela chama tremeluzente piorava as coisas. A procura pelo anel estava demorando um bocado, e ele ainda não havia preparado a aula do dia seguinte – sobre a função do pâncreas no metabolismo de carboidratos.</p>
<p>Fred tinha um livro enorme sobre o assunto, e mal o tinha folheado. Endocrinologia, oras! Que coisa mais idiota, pensava ele. Passar a vida estudando algum sebo que veio de uma glândula escondida no corpo&#8230; Ele considerava isso ridículo! A beleza estava no corte, na sutura e em qualquer coisa que pudesse envolver um serrote em uma sala de operações. O estereótipo do ortopedista.</p>
<p>Por fim, ele encontrou o anel. Tendo uma das missões cumpridas, decidiu ler alguma coisa para a aula do dia seguinte.</p>
<p>Esbarrou, então, com um artigo – considerado por ele como extremamente chato – do norte-americano Moses Barron, chamado “A Relação das Ilhotas de Langerhans [hoje, chamadas de ilhotas pancreáticas] com o Diabetes com Referências Especiais a um Caso de Litíase Pancreática [pedra no ducto das enzimas do pâncreas]”.</p>
<p>Aqui, cabe uma explicação. A primeira, sobre o título dos artigos científicos: sim, todos são longos, aparentemente chatos e complicados, e sempre dizem exatamente sobre o que o artigo vai falar. A segunda, sobre o <a href="http://www.diabeticool.com/o-que-e/pancreas/">pâncreas</a>.</p>
<p>Esse órgão, que fica atrás do estômago, é uma glândula de função dupla. Isso significa que ele produz secreções diferentes: algumas endócrinas – lançadas no sangue, e sendo chamadas de “hormônios” – e outras exócrinas – lançadas em uma cavidade, no caso, no começo do intestino delgado por um ducto, sendo chamadas, então, de “enzimas pancreáticas”. A parte que se refere ao diabetes, já se sabia que era a parte endócrina.</p>
 Todos nós somos assim, por dentro. A diferença é que as veias não são azuis&#8230; O pâncreas é aquela massa amarela em formato de “L” atrás do estômago.
<p>O artigo lido dizia que, em um caso raro, um cálculo – uma pedra, enfim – havia entupido o ducto do pâncreas até o intestino delgado. Com isso, na necropsia – eca, quando abriram a barriga do morto! – perceberam que a parte exócrina – lembra, a parte das enzimas? – havia atrofiado. Apenas a parte das ilhotas pancreáticas havia restado, intacta. Então, concluía o autor, os achados eram consistentes com outros experimentos, e indicavam que alguma secreção das ilhotas pancreáticas tinha uma relação íntima com o diabetes.</p>
<p>Em algum momento depois da leitura do artigo, Fred caiu no sono, à mesa, em cima do livro. Às duas da manhã, ele acordou, sozinho.</p>
<p>Não, ele não estava babando no livro. Também não tinha um ladrão dentro de casa. A coisa é que uma ideia havia brotado em sua mente. Algo, não se sabe de onde, havia surgido e apontava para um caminho que, até onde ele sabia, ninguém havia percorrido antes.</p>
<p>Vinte e cinco palavras (em inglês), cheias de erros causados pelo sono.</p>
<p>“<em>Diabetis</em> (sic) <em>ligar ductos pancreáticos dos cachorros. Manter cachorros vivos até a parte exócrina atrofiar. Tentar isolar a secreção das ilhotas restantes e diminuir a glicosurea</em> (sic).”</p>
<figure id="attachment_6616" aria-describedby="caption-attachment-6616" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6616" alt="nota de Banting diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/nota-de-Banting-diabetes.jpg" width="600" height="463" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/nota-de-Banting-diabetes.jpg 600w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/nota-de-Banting-diabetes-311x240.jpg 311w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-6616" class="wp-caption-text">A nota original do Fred, para que ele lembrasse de suas ideias.</figcaption></figure>
<p>Depois disso, ele decidiu dormir na cama. E dormiu até a manhã seguinte.</p>
<p>A ideia era mais ou menos a seguinte&#8230; Pela interrupção dos ductos do pâncreas, por cirurgia, Fred conseguiria que a parte exócrina do pâncreas atrofiasse ao longo do tempo, deixando apenas as ilhotas, intactas. Então, ele tentaria isolar o tecido preservado e a secreção que existisse ali. Essa secreção parecia aliviar os sintomas do diabetes em animais, e seria injetada em outro animal, que teria seu pâncreas removido cirurgicamente para que tivesse um diabetes “cirúrgico”.</p>
<p>Não era exatamente uma ideia nova. Lydia de Witt, em 1906, teve a mesma ideia. Um estudante, chamado Ernest Scott, tinha chegado à mesma conclusão de que as enzimas do pâncreas atrapalhavam a secreção quando injetadas. E o romeno Nicolas Paulesco já havia conseguido, inclusive, um extrato que ele chamou de “pancreína” que diminuía a glicemia de cachorros – o problema é que o trabalho de Paulesco não foi publicado em inglês.</p>
<p>Outro problema com os trabalhos anteriores é que eles falhavam em conseguir reproduzir o efeito em larga escala, o que impossibilitava testes estatísticos e a comprovação de resultados. Se Frederick Banting soubesse disso, provavelmente desistiria da ideia que teve.</p>
<p>Para nós, 382 milhões de pessoas com diabetes ao redor do mundo, a sorte é que Fred não sabia praticamente nada sobre o assunto.</p>
<p>~</p>
<p>No dia seguinte, após sua aula, Fred correu para falar sobre sua ideia para o professor Miller. Após acalmar Fred e entender sua ideia, os olhos de Miller brilharam. O professor John J. R. Macleod tinha sido recentemente contratado pela Universidade de Toronto, e era o chefe do departamento de Fisiologia. Macleod era uma das maiores autoridades em metabolismo no mundo, à época. E, para facilitar as coisas, o departamento tinha recebido um investimento de um milhão de dólares para pesquisa. Miller mandou Banting falar com Macleod.</p>
<p>Durante a conversa entre Fred Banting e John Macleod, o entusiasmo de Fred foi contido pelo academicismo de John. Alguns pontos que Fred sequer havia pensado pareciam barrar todo o trabalho. Não que John fosse mau caráter, mas, não havia motivos para investir em uma pesquisa que claramente fracassaria se não fosse bem estruturada. John Macleod, então, deu uma missão a Fred Banting: enviar uma proposta, por escrito, do que faria em seu trabalho, dos métodos e materiais que precisaria, e o que esperava encontrar com aquilo.</p>
<figure id="attachment_6617" aria-describedby="caption-attachment-6617" style="width: 500px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6617" alt="Frederick Banting e John MacLeod diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/frederick-banting-e-John-MacLeod-diabetes.jpg" width="500" height="275" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/frederick-banting-e-John-MacLeod-diabetes.jpg 500w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/frederick-banting-e-John-MacLeod-diabetes-415x228.jpg 415w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /><figcaption id="caption-attachment-6617" class="wp-caption-text">Frederick Banting, à esquerda; John Macleod, à direita.</figcaption></figure>
<p>Aquilo desanimou muito nosso amigo Fred. A proposta da companhia petrolífera parecia ainda mais sedutora, porém, Fred escreveu uma carta com a proposta e colocou no correio. Três dias depois, John respondeu à proposta, autorizando Fred a começar a pesquisa.</p>
<p>Animado com a possibilidade de uma aventura no norte do Canadá, Fred não respondeu à autorização de John por um mês. Respondeu apenas quando soube que a companhia não levaria médico nenhum à expedição.</p>
<p>Quando o trabalho começou, Fred Banting foi apresentado a Charles Best – chamado carinhosamente de “Charley” –, um estudante de medicina que era fantástico com bioquímica, e John Macleod considerou a ideia de apresentá-lo aos modos cirúrgicos de Fred.</p>
<p>Ao longo do verão, Fred e Charley trabalharam bastante. Eles encontravam problemas com a anatomia dos cachorros – uma vez que só tinha estudado a anatomia humana! – e principalmente, com as condições de esterilização da sala de operações, que não eram as adequadas. Alguns dos cachorros morreram por infecções, outros por perda de sangue. Porém, conseguiram um sucesso.</p>
<p>Após realizar as técnicas necessárias, Fred e Charley conseguiram um pâncreas cujas ilhotas estavam intactas. Processaram-no e obtiveram um líquido castanho-rosado. Medindo a <a href="http://www.diabeticool.com/o-que-e/glicemia/">glicemia</a> do cachorro com diabetes antes e depois da aplicação do extrato, perceberam que a glicemia era normalizada pelo extrato. Às seis da tarde, os dois trancaram o laboratório, e voltaram na manhã seguinte.</p>
<p>O cachorro estava em coma, pela falta das injeções do extrato. Assim que conseguiram medir a glicemia, perceberam que ela estava muito acima do normal, e o cachorro tinha uma infecção. Infelizmente, ele acabou não resistindo.</p>
<p>Repetiram o procedimento em outro cachorro, desta vez, passando a noite inteira com o animalzinho. Cada vez que o extrato era injetado, a glicemia caía. Depois de quatro dias vivo, sem o pâncreas, e recebendo as injeções, o cãozinho morreu com uma infecção.</p>
<p>Em 13 de agosto de 1921 – curiosamente, exatos 70 anos antes de eu nascer&#8230; – Fred e Charley realizaram um experimento com um “grupo controle”, técnica de estatística para confirmar os resultados de um experimento, por exemplo. Retiraram os pâncreas de dois cachorros, e mantiveram um deles sem o extrato. O cãozinho sem extrato morreu dois dias depois, enquanto a cadelinha com extrato não apenas sobreviveu, mas desenvolveu um afeto todo especial por Fred e Charley. Eles a chamaram de Marjorie.</p>
<p>Com a sobrevivência de Marjorie por mais de vinte dias, sem pâncreas – a cadelinha sobreviveu por mais de sessenta dias, até que o extrato se esgotasse –, recebendo o extrato, John considerou que a pesquisa estava correndo bem. Era hora de incluir a última parte da equipe: alguém que pudesse isolar a substância, que estava sendo chamada por Fred e Charley de “isletina”.</p>
<p>James Collip era professor de Farmacologia na Universidade de Toronto, e foi o indicado por John Macleod para isolar a substância do extrato pancreático. O curioso é que, a partir desse momento, Fred sentiu seu trabalho ameaçado por John.</p>
<p>Em vez de estabelever uma colaboração, Fred e Charley entraram em uma competição não-declarada com James para ver quem isolaria primeiro a substância então chamada de isletina. James ganhou a competição, e não tripudiou. Agradeceu a Fred, Charley e John a oportunidade de trabalhar e continuou estudando as propriedades da isletina.</p>
<p>Em dezembro de 1921, a isletina foi isolada.</p>
<p>Aquele Natal foi difícil para Fred. Enquanto John, Charley e James tinham suas famílias, esposas ou noivas, Fred estava sozinho. Estava praticamente zerado em termos financeiros. Nos meses anteriores, conseguira algum dinheiro fazendo algumas operações de amígdalas e vendendo alguns instrumentos cirúrgicos. Mas agora, não tinha mais nada.</p>
<p>Ele preparava suas modestas refeições em um fogareiro no laboratório, quase diariamente, a não ser aos domingos, quando conseguia um jantar grátis na paróquia de St. James, onde fora aluno. Ele não se atreveria a pedir dinheiro à família, uma vez que dificilmente entenderiam – passavam o ano planejando colheitas, nada relacionado a pesquisas abstratas!</p>
<p>Mesmo passando as festas de fim de ano sozinho, observando pela janela de seu quarto os compradores indo e voltando das lojas, quase à mercê do desespero, algo mantinha Fred firme em seu propósito. Ele sentia que sua missão de vida, de ajudar as pessoas, estava cada vez mais próxima&#8230;</p>
<figure id="attachment_6618" aria-describedby="caption-attachment-6618" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" class="size-full wp-image-6618" alt="banting macleod collip e herbert best diabetes" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/banting-macleod-collip-e-herbert-best-diabetes.jpg" width="600" height="920" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/banting-macleod-collip-e-herbert-best-diabetes.jpg 600w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2014/01/banting-macleod-collip-e-herbert-best-diabetes-157x240.jpg 157w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-6618" class="wp-caption-text">Os quatro “descobridores”: Banting, o idealizador; Macleod, o orientador; Collip, aquele que isolou; Best, aquele que forneceu a bagagem teórica a Banting.</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<div style="background-color: #b8d4e2; border: 2px solid; border-color: #6E7F88; padding: 10px;"><img loading="lazy" class="alignright size-full wp-image-6190" alt="ronaldo wieselberg perfil diabeticool" src="http://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2013/12/ronaldo-wieselberg-perfil-diabeticool.jpg" width="166" height="167" srcset="https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2013/12/ronaldo-wieselberg-perfil-diabeticool.jpg 166w, https://www.diabeticool.com/wp-content/uploads/2013/12/ronaldo-wieselberg-perfil-diabeticool-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 166px) 100vw, 166px" /><span style="color: #424c52;"><strong>Ronaldo José Pineda Wieselberg</strong></span> tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.</div>
<div style="background-color: #dbe9f0; border: 2px solid; border-color: #6E7F88; padding: 10px;"><strong>+ Leia mais textos de Ronaldo Wieselberg:</strong><br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/a-historia-do-diabetes-parte-1-da-antiguidade-ao-seculo-xix/">A História do Diabetes &#8211; Parte I</a>&#8221; &#8211; 11.01.2014<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/exageros-no-fim-do-ano/">Exageros no Fim do Ano &#8211; como aproveitar as Festas com saúde</a>&#8221; &#8211; 31.12.2013<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/revelado-o-segredo-da-agua-de-quiabo/">Revelado o segredo da água de quiabo</a>&#8221; &#8211; 18.12.2013<br />
&#8220;<a href="http://www.diabeticool.com/uma-nova-forca-lutando-pelo-diabetes-por-ronaldo-wieselberg/">Uma nova força lutando pelo diabetes</a>&#8221; &#8211; 16.12.2013</div>
<p>&nbsp;</p>The post <a href="https://www.diabeticool.com/a-historia-do-diabetes-parte-2-de-uma-decepcao-amorosa/">A História do Diabetes – Parte 2 – de uma Decepção Amorosa</a> first appeared on <a href="https://www.diabeticool.com">DiabetiCool - Informação de Qualidade sobre Diabetes</a>.]]></content:encoded>
					
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