A relação entre as bactérias do seu corpo e o diabetes tipo 1 e tipo 2

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Diferentes tipos de bactérias podem aumentar os riscos de aparecimento do diabetes. Saiba quais são eles e como evitá-los.
DIABETES e as bacterias do corpo

Por Ronaldo Wieselberg*
Antes de começar a ler esse texto, sugiro que os leitores mais puristas em relação à higiene tomem uma água, respirem fundo e só então comecem a ler!

 

MEU CORPO ESTÁ TOMADO POR BACTÉRIAS! 

O nosso corpo tem mais bactérias do que células ‘nossas’. São bactérias na pele, na boca, nas narinas, no ânus… e o mais importante: elas são benéficas para nós! Ou seja, pode deixar o seu álcool gel de lado por enquanto. Vamos falar um pouquinho dessas bactérias boazinhas e da relação delas com o diabetes?

As bactérias vivem em muitos lugares do nosso corpo, como já falamos. A simples presença delas é importante, pois elas evitam que outras espécies de bactérias, causadoras de doenças, nos ataquem (principalmente na pele e no sistema digestório). Além disso, elas possuem diversos outros ‘benefícios’ para o corpo, acompanhe:

  • elsa produzem compostos antimicrobianos – sim, bactérias boas também matam bactérias malvadas!
  • produzem vitaminas que utilizamos para sobreviver
  • auxiliam o sistema de defesa do corpo a produzir anticorpos que matarão bactérias nocivas – a chamada “reatividade cruzada”.
relacao entre diabetes tipo 2 e antibioticos

Bactérias: algumas fazem mal à saúde, mas outras são essenciais para o corpo.

Mas como que ‘pegamos’ estas bactérias que vivem conosco? Bem, elas aparecem no nosso corpo por meio de muitas fontes. A maioria delas vêm da nossa exploração do mundo: ou seja, pela boca – pelo que comemos – e pelo tato – pelas coisas nas quais tocamos. Isso tem início nos momentos mais primitivos da nossa vida – ou seja, desde que estamos na barriga das nossas mães, há a passagem de algumas bactérias até nós. Depois que nascemos, isso se intensifica, uma vez que mamamos e o seio materno não é estéril (ainda bem!), sem contar que o próprio trabalho de parto contribui para isso.

 

QUAIS SÃO AS BACTÉRIAS DO NOSSO CORPO?

Existem duas classificações de bactérias que moram no nosso intestino alegremente: os Bacterioides e os Firmicutes. De acordo com alguns estudos recentes – que datam entre 2014 e 2016 –, os Bacterioides estariam relacionados à não-obesidade e os Firmicutes estariam relacionados com maior risco de obesidade.

Portanto, a presença dos Firmicutes aumentaria o risco de desenvolver diabetes – tanto o tipo 2 quanto o tipo 1! – e a presença dos Bacterioides diminuiria esse risco! O mecanismo pelo qual isso acontece ainda é incerto, porém, existem algumas teorias interessantes…

Ter um determinado tipo de bactérias no meu organismo poderia aumentar minhas chances de ganhar peso?

A primeira dela diz que uma quantidade aumentada de Firmicutes diminuiria a produção de substâncias que protegem a mucosa intestinal. Isso aumentaria a inflamação do local e alteraria a permeabilidade da mucosa. Sendo assim, basicamente, tudo o que chegar no intestino ‘passaria’ para a corrente sanguínea! Isso faria com que substâncias que causam uma inflamação geral passassem também para o sangue, causando então um aumento da resistência à ação da insulina. Já os Bacterioides produzem bastante dessa substância, protegendo a mucosa do intestino e diminuindo a inflamação geral.

Se sujar faz bem – eis uma verdade que vai além do slogan publicitário! Afinal, é nessas brincadeiras que entramos em contato com diversos tipos de bactérias, o que pode ser benéfico à saúde.

Outra teoria diz que os Firmicutes produzem substâncias que diminuem a saciedade ao comer. Portanto, fariam a pessoa comer mais e mais, aumentando o peso, a resistência insulínica e favorecendo o diabetes tipo 2. Já os Bacterioides aumentariam a saciedade pela produção aumentada de uma substância chamada serotonina – relacionada ao prazer de comer! – e dessa forma a pessoa comeria menos, teria um controle do peso mais fácil e favoreceria o controle da glicemia.

Todos esses fatores de ganho de peso e inflamação são bem relacionados ao diabetes tipo 2. Porém, quando falamos de diabetes tipo 1, precisamos voltar ao que falei lá no começo do texto: reatividade cruzada.

Como os Firmicutes aumentam a inflamação da mucosa, sua ação faria passar pelo intestino pedacinhos de bactérias que aumentam a atividade imunológica. Assim, há a produção de anticorpos por parte do sistema de defesa, que por algum capricho do destino também ataca as células beta do pâncreas. Essa é uma teoria, inclusive, sobre como surgiriam os anticorpos do diabetes tipo 1 – anticorpos anti-GAD, anti-ilhota, anti-insulina…

 

COMO MUDAR AS BACTÉRIAS DO SEU CORPO? 

Existem alguns métodos para trocar as bactérias do corpo e conseguir a riqueza de Bacterioides que todos queremos. Um deles – o mais seguro e mais difícil – é pela alimentação.

O consumo de frutas, verduras e fibras está relacionado a uma maior quantidade de Bacterioides, enquanto o consumo de alimentos industrializados e embutidos está relacionado a uma maior quantidade de Firmicutes. Pense em como isso é importante, considerando que as bactérias passam de mãe para filho… então não adianta querer que só o seu filho coma bem. Se você não comer bem, não adianta reclamar depois: os Firmicutes ainda estarão por aí e poderão ser transmitidos à prole!

bacterias intestinais diabetes

Bactérias intestinais: além de ajudarem na digestão, ainda afetam o peso e a glicemia. Microscopia: Martin Oeggerli

Essa alimentação saudável – chamada por muitos de “alimentação viva” – não tem resultado de uma hora para a outra ou de um dia para o outro. Para mudar de verdade as bactérias do sistema digestório, é necessário que essa dieta seja mantida por alguns meses, no mínimo. Então, nada de comer bem por pouco tempo e acreditar que isso basta: o bom hábito deve ser constante!

O uso de antibióticos também altera as bactérias do corpo. Alguns antibióticos, especialmente Ciprofloxacino e Clindamicina, modificam a fauna de bactérias do corpo, e sabemos que quanto mais cedo na vida for feito esse uso, maior a chance de desenvolver obesidade, diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2 pelo aumento dos Firmicutes. Não usamos antibióticos para “evitar” o diabetes, mesmo porque o uso indiscriminado de antibióticos traz consequências desastrosas – como por exemplo a resistência bacteriana a essa classe de medicamentos. Assim, os antibióticos devem ser usados com cuidado, apenas com a recomendação médica.

Por fim, o método mais “radical” de troca de bactérias é o transplante de fezes. Sim, pode voltar lá e ler de novo, você viu certo. Em alguns ratinhos de laboratório, o transplante de fezes foi realizado entre ratinhos com obesidade e ratinhos de peso normal. Os ratinhos que receberam as fezes dos ratinhos com obesidade… também engordaram!!! Em contrapartida, os transplantes de fezes ricas em Bacterioides diminuiu a incidência do diabetes e diminuiu a resistência insulínica! Tomara que nenhum ser humano precise passar por este teste!

 

Bem, bactérias são apenas uma das várias partes do diabetes. Curiosamente, é uma das partes que conseguimos mudar com bons hábitos alimentares, e portanto, podemos fazer em casa! Colabore com o seu corpo!

Até a próxima!

ronaldo wieselberg perfil diabeticoolRonaldo José Pineda Wieselberg tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.
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