Peptídeo C – de Patinho Feio a Cisne no Mundo do Diabetes

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Antes visto como mero “resto” da insulina, o peptídeo C ganha status de possível agente terapêutico no tratamento do diabetes. Entenda neste texto de Ronaldo Wieselberg.

peptideo c ronaldo wieselberg

Quando descobriu-se, em 1967, como é realizada a produção e secreção de insulina no corpo humano, descobriram, também, um “resto”.  A insulina é formada dentro das células beta do pâncreas na forma de uma molécula chamada “pró-insulina”. Esta molécula fica em uma espécie de espiral, e ligações químicas “fecham” essa espiral. Depois, algumas substâncias cortam as partes “desnecessárias” e a insulina está pronta para uso.

Como a insulina tinha duas cadeias que eram ligadas, as chamadas “cadeia A” e “cadeia B” – o pessoal não é lá muito criativo para nomes… – batizaram aquele “resto”, cortado pelas substâncias depois da ligação das cadeias A e B, de peptídeo C (veja na imagem abaixo).

Naquela época, buscaram alguma função biológica do peptídeo C. Imaginaram que, vindo da molécula de pró-insulina, ele deveria ter alguma ação parecida com a insulina propriamente dita – por exemplo, diminuir a glicemia. Mas não acharam. E ele ficou meio de lado. Até o começo dos anos 90.

Inclusive nos livros de Endocrinologia mais renomados é dito, com todas as palavras: “o peptídeo C não tem função biológica conhecida” (Greenspan’s Basic and Clinical Endocrinology, 9th Edition, 2011). Para se pensar em como as coisas podem mudar rapidamente…

peptideo c diabetes

O Peptídeo C, marcado como “Peptídeo de Conexão” na molécula de pró-insulina.

O peptídeo C é secretado na corrente sanguínea junto da insulina, e na mesma quantidade de moléculas – o termo usado na ciência para esse acontecimento é “secreção equimolar”, o equivalente a dizer que saiu da célula a mesma quantidade de dúzias de laranjas e de melancias (ou seja, é a mesma quantidade e não é o mesmo peso, porque a melancia pesa mais). Logo, uma função bastante interessante para o peptídeo C seria marcar a produção de insulina.

Assim, se ao fazer o exame de sangue, você encontrasse o peptídeo C – que descobriram que durava mais, conseguia resistir ao metabolismo do fígado… – era sinal de que ainda produzia insulina. E, então, ou não precisaria de insulina, ou precisaria de quantidades pequenas.

E aí, começaram a surgir evidências que criaram um ponto de interrogação gigante na cabeça de muita gente.

Pessoas que tinham o período de lua-de-mel estendido – não, nada da folga pós-casamento, me refiro àquele período em que ainda há uma pequena secreção de insulina no diabetes tipo 1 – tinham uma incidência menor de complicações. O transplante de pâncreas parecia que “diminuía” o prejuízo trazido pelas complicações crônicas – e não parecia ter muito a ver com a quantidade de insulina produzida pelo pâncreas ou com o controle glicêmico.

Saiba mais sobre o período de lua-de-mel do diabetes tipo 1!

 

E aí, decidiram olhar com mais carinho para o patinho feio. Ele tinha sido negligenciado, mas, oras, assim como o patinho da história, estava se mostrando algo bem diferente.

No começo desse ano – 2015 – a Diabetes Research and Clinical Practice, uma das revistas científicas de maior prestígio em relação ao diabetes no mundo, publicou um artigo que revisava os trabalhos de investigação sobre o peptídeo C. E eles foram impressionantes.

O Diabeticool traz, com exclusividade, os achados dessa revisão, adaptados e prontos para discussão!

 

Como funciona o Peptídeo C? 

Se eu me lembro das minhas aulas de Bioquímica e das bases da Farmacologia, tudo se deve à ligação do peptídeo C em uma parte da célula – chamada de “receptor” – que vai estimular um monte de efeitos dentro daquela “caixinha” minúscula.

Até onde se sabe, o peptídeo C tem função ao estimular a produção de um tipo de enzima, reduz a formação de substâncias inflamatórias e danosas ao corpo – por exemplo, os famosos “radicais livres” – e, principalmente, protege as células da parede dos vasos sanguíneos dos efeitos lesivos causados pela hiperglicemia – diminuindo, inclusive, os processos de aterosclerose.

O porém é que descobriram, também, que esse receptor para o peptídeo C satura rápido. O que isso significa? Vamos ver se consigo explicar…

Imagine que você quer assistir àquele filmão que acabou de ser lançado. Porém, ele só está disponível em uma sessão, em um cinema, um tanto quanto afastado na cidade. E, claro, existem lugares limitados no cinema. Então, quem chegar primeiro, assiste ao filme – e quem não chegar a tempo, sinto muito, espere outra sessão começar.

Isso acontece nos receptores, também. Se existir muito peptídeo C na corrente sanguínea, os receptores ficarão “ocupados”, e aqueles que não conseguirem se ligar vão ficar ali, “esperando outra sessão começar”.

E, diferentemente do exemplo, não dá para “construir outro cinema” para que o peptídeo C restante se ligue também… Então, não adianta dar grandes quantidades dessa substância: ela não será totalmente aproveitada desse jeito!

 

Os Efeitos do Peptídeo C no Corpo 

Alguns estudos foram realizados no decorrer dos anos. A maioria deles usou modelos animais – ou seja, experiência em cobaias –, mas alguns deles também foram realizados em pessoas com diabetes.

Em casos de neuropatias – complicações relacionadas aos nervos –, os estudos demonstraram que a aplicação de peptídeo C, subcutâneo, diminuiu o desenvolvimento de problemas de condução (inclusive aumentou a velocidade de condução dos nervos em até 80%) e melhorou os sintomas. Isso ocorreu, de acordo com os cientistas, porque o fluxo sanguíneo ali – sim, os nervos também recebem sangue para que sejam nutridos! – é aumentado, assim como um mecanismo responsável pela condução dos impulsos nervosos. No caso da disfunção erétil – uma complicação neuropática – o uso do peptídeo C também demonstrou melhoras.

Acompanhe uma explicação (em inglês) das diferenças entre peptídeo C no diabetes tipo 1 e no tipo 2.

Nos casos de nefropatias – complicações relacionadas aos rins – o uso do peptídeo C diminuiu a excreção proteica, assim como também diminuiu a filtração renal – poupando, assim, o trabalho destes órgãos. Além disso, ao atuar em um mecanismo de reabsorção de sódio nos rins, e diminuindo a produção de fatores que aumentam a fibrose – que é o mecanismo de lesão –, o peptídeo C tinha um efeito protetor. Mas, de acordo com os cientistas, isso ainda precisa ser estudado com mais calma…

No caso da função cardíaca e do fluxo sanguíneo, os estudos mostraram que o uso do peptídeo C diminuiu as arritmias cardíacas – já que elas estavam relacionadas aos problemas dos nervos que controlam o coração nas pessoas com diabetes – e aumentou o fluxo sanguíneo de maneira geral, nos rins, coração, nervos… e inclusive na pele, onde a falta de fluxo sanguíneo é motivo de preocupação para a cicatrização.

Na retinopatia, complicação relacionada aos olhos, a injeção do peptídeo C nos olhos de cobaias – no caso, ratos – impediu a progressão da retinopatia diabética. Não que o método de administração seja muito agradável, mas ainda são necessários mais estudos na área para comprovar sua eficácia.

 

Então, o que podemos falar desse peptídeo, que mal conheço e já considero pacas? 

Em primeiro lugar, tudo aponta que o peptídeo C seja um antioxidante próprio do corpo. Porém, não sabemos direito qual a atividade metabólica dele – principalmente por não conhecermos em detalhes seu receptor nas células.

Além disso, não sabemos se administrar o peptídeo C a longo prazo pode causar algum dano à saúde – é MUITO difícil em Medicina termos alguma coisa que, na dose errada, não cause problemas… –, e isso precisa ser estudado com muito cuidado antes que o seu uso possa ser liberado.

Porém, o que se sabe é que, quando em concentração fisiológica – ou seja, em concentração igual à da liberação no corpo –, ele tem efeitos benéficos. Assim, se você tem diabetes tipo 2, diabetes LADA, diabetes tipo 1 em lua-de-mel, ou outros tipos de diabetes com produção de insulina, valorize esse período e estenda-o o máximo que conseguir com o melhor controle glicêmico possível!

Quem tem a ganhar é você… até que o novo “cisne” dos hormônios possa alçar voo com segurança.

Até a próxima!

ronaldo wieselberg perfil diabeticoolRonaldo José Pineda Wieselberg tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.
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Se quiser saber mais (só se tiver muita coragem)…
  • Wahren J, Larsson C. C-Peptide: New Findings and therapeutic possibilities. Diabetes Research and Clinical Practice 107 (2015) 309-319.  http://dx.doi.org/10.1016/j.diabres.2015.01.016
  • Gardner DG, Shoback D. Greenspan’s Basic & Clinical Endocrinology, 9th Edition. McGraw-Hill, 2011. Capítulo 17.
  • Devlin TM. Manual de Bioquímica com Correlações Clínicas, 7ª Edição. Blucher, 2011. Capítulo 3.

 

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