Os cachorrinhos curados

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Cães têm o diabetes tipo 1 curado por equipe de cientistas espanhóis. O que isto significa para seus amigos humanos?

A equipe espanhola que curou o diabetes dos cachorrinhos Beagle. No centro, Fàtima Bosch, a líder do projeto. Foto: Pierre Caufapé

A equipe espanhola que curou o diabetes dos cachorrinhos Beagle. No centro, Fàtima Bosch, a líder do projeto. Foto: Pierre Caufapé

Toda vez que uma equipe de cientistas afirma ter descoberto uma cura para o diabetes, muita gente sorri de alegria e esperanças, e outras tantas pessoas franzem o cenho, céticas. Há razão de ser para ambos os casos. Desta vez, porém, os céticos podem ficar um pouco mais sossegados. A pesquisa da vez foi publicada no periódico científico Diabetes, o mais respeitado do mundo sobre o tema, o que garante que este é um trabalho sério e de fortes bases teóricas e práticas.

A cura do diabetes – tipo 1, no caso – foi conseguida em cachorros, por uma equipe da Universitat Autònoma de Barcelona. Os pesquisadores já haviam atingido ótimos resultados de cura do diabetes tipo 1 em camundongos anteriormente, porém esta é a primeira vez que o método foi empregado, com sucesso, no tratamento de animais grandes.

Tal avanço terapêutico abre as portas para que pesquisas similares sejam realizadas também em humanos no futuro.

 

Como eles conseguiram a cura?

A pesquisa se baseou na terapia gênica, que é o uso de DNA para tratar doenças.

Jogo rápido: o que é a terapia gênica?

O DNA é o “banco de dados” do nosso corpo, um conjunto de instruções que as células seguem a fim de produzir proteínas. A idéia da terapia gênica é “inserir” novos pedaços de DNA nas células do paciente, fazendo com que elas produzam determinadas proteínas que normalmente não produziriam. Estes pedacinhos de material genético são entregues às células via vírus modificados.

A terapia gênica já foi vista, há algumas décadas, como o futuro da medicina; porém, os primeiros testes em humanos, desastrosos, mostraram que eram necessários muito mais anos de estudo antes que esta terapia fosse uma opção médica viável. O tempo passou, a Ciência progrediu, e, hoje em dia, a terapia gênica volta a ser o foco de diversos estudos para a cura de doenças.

 

Os cachorrinhos que participaram do projeto (todos da simpática raça Beagle, por sinal!) receberam algumas injeções nas pernas traseiras, em uma única sessão. Estas injeções continham dois vetores da terapia gênica. O intuito de um dos vetores era expressar o gene da insulina, e do outro era expressar o gene da glicoquinase. A insulina, nós sabemos, é o hormônio que permite ao açúcar do sangue penetrar nas nossas células. Já a glucoquinase é uma enzima que regula esta absorção do açúcar da corrente sangüínea. Quando funcionam em conjunto, a insulina e a glicoquinase trabalham como um “sensor de glicose”, ativando as vias metabólicas corretas para que a glicemia se mantenha sempre em bom equilíbrio.

De acordo com um comunicado à imprensa feito pela Universidade, os cachorros tratados com apenas uma sessão da terapia gênica mostraram um controle eficiente da glicemia tanto em jejum quanto após serem alimentados. Os resultados foram melhores do que os apresentados por cachorros diabéticos tipo 1 que receberam injeções diárias de insulina. Além disso, os cães tratados não apresentaram nenhum episódio de hipoglicemia, mesmo após exercícios físicos, tiveram bom controle do peso e não desenvolveram efeitos colaterais. Em alguns casos, estes excelentes resultados se mostraram efetivos até 4 anos após as injeções.

Em suma, o diabetes havia sido curado.

 

O futuro

Daqui para a frente, mais estudos de eficácia e segurança da terapia gênica devem ser realizados em pets. Eles serão a base para que os tão aguardados estudos com humanos possam começar a ser feitos. Fàtima Bosch (com o acento assim trocado mesmo), principal autora do trabalho, explicou que estes procedimentos futuros são “lentos e muito custosos”, e que é preciso paciência antes de testar a técnica nos humanos.

 

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