Moscas diabéticas ajudam os humanos

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Moscas-da-fruta com diabetes ajudam cientistas a descobrir a ligação entre glicemia alta e problemas no coração. A novidade pode gerar novos tratamentos para doenças cardíacas humanas.

drosophila melanogaster diabetes

Moscas-da-fruta podem ter fornecido uma valiosa contribuição à saúde humana, em especial à dos diabéticos. É o que acreditam cientistas do Instituto de Pesquisas Médicas Sanford-Burnham e da Escola de Medicina Mount Sinai, nos EUA. Em um experimento sem precedentes, eles utilizaram moscas diabéticas a fim de entender como as altas taxas de açúcar no sangue aumentam os riscos de doenças cardíacas.

 

Moscas diabéticas? Como isto é possível?

As moscas-da-fruta, cujo nome científico é Drosophila melanogaster, são velhas companheiras dos geneticistas. Estes insetos são utilizados há décadas como modelos de estudo de doenças humanas, uma vez que boa parte do seu funcionamento bioquímico é bastante similar ao nosso. Além disso, elas apresentam ciclo de vida rápido, são fáceis de cuidar e possuem características celulares que facilitam os estudos de seus genes. Para quem não identificou os animaizinhos pelo nome, as moscas-da-fruta são aquelas moscas bem pequenas (mesmo!) que costumam rodear frutas maduras – e parecem ter uma predileção especial pelas bananas!

A fim de tornar uma mosca-da-fruta diabética, não foi preciso engenharia genética avançada. Elas simplesmente foram criadas sendo alimentadas com alimentos ricos em açúcares. Em pouco tempo, os pesquisadores observaram que as moscas apresentavam sintomas muito similares ao do diabetes tipo 2 humano, como glicemia alta e defeitos no funcionamento da insulina. O coração das moscas, do mesmo modo, passou a funcionar de maneira anômala e não mais batia como antigamente: a função cardíaca deteriorou com o tempo e surgiram fibrose e arritmias, sintomas também relacionados ao diabetes.

Drosophila melanogaster, mais conhecida como mosca-da-fruta.

Drosophila melanogaster, mais conhecida como mosca-da-fruta.

 

Descobrindo a relação entre diabetes e problemas no coração das moscas

Nesta altura das pesquisas, os cientistas já tinham uma coleção de moscas com diabetes e que apresentavam sintomas de doenças cardíacas iguais aos dos humanos. Faltava elucidar a principal questão: qual a relação entre muito açúcar no sangue e a função cardíaca?

A alimentação das moscas foi feita com um açúcar chamado de sacarose, muito comum também na dieta humana. Ele é composto por uma molécula de frutose e uma da famosa glicose. Por isto, os pesquisadores estudaram as vias de sinalização molecular nas quais a sacarose está envolvida. Isto é, se o diabetes afeta o coração, e foi a sacarose que provocou o diabetes, qual o “caminho” interno que relaciona a sacarose aos problemas cardíacos?

A resposta parece estar em uma via bioquímica chamada de via da hexosamina. Ela normalmente possui relevância pequena no processamento de açúcares dentro das células, mas parece ser muito importante quando as taxas de açúcar encontram-se altas.

A fim de validar esta idéia, os cientistas aumentaram artificialmente – ou seja, sem utilizar as moscas diabéticas – o processamento de açúcar através da via da hexosamina, e os resultados foram, de novo, danos ao coração. A boa notícia é que, ao bloquearem esta via molecular, os pesquisadores preveniram, de fato, boa parte dos problemas cardíacos, como as arritmias.

Imagem da pesquisa. À esquerda, vasos cardíacos de moscas normais, com pouca fibrose (em rosa). Já na direita, a fibrose domina o vaso de uma mosca alimentada com dieta rica em sacarose. Crédito: Sanford-Burnham Medical Research Institute.

Imagem da pesquisa. À esquerda, vasos cardíacos de moscas normais, mostrando pouca fibrose (em rosa). Já na direita, a fibrose domina o vaso de uma mosca alimentada com dieta rica em sacarose. Crédito: Sanford-Burnham Medical Research Institute.

 

Como esta pesquisa pode ajudar os humanos?

Com a palavra, os pesquisadores: “É notável que nós podemos, agora, utilizar moscas-da-fruta como uma ferramenta de descoberta, auxiliando-nos na elucidação de mecanismos moleculares básicos. E as descobertas não se restringem apenas a diversos tipos de doenças cardíacas. Podemos agora estudar as influências destes mecanismos moleculares na dieta, o que nos ajuda a entender o que acontece nos corações humanos”, disse Rolf Bodmer, Ph.D e principal autor do estudo.

Ross Cagan, outro Ph.D e autor do trabalho, complementa: “Danos ao coração induzidos pela dieta são um dos problemas de saúde mais sérios da nossa sociedade. Nossas moscas agora nos dão as ferramentas para explorar a influência da alimentação com muito açúcar, além de novas maneiras para identificar tratamentos no contexto do corpo inteiro.”

Em outras palavras, o estudo do funcionamento interno das moscas permitiu aos cientistas encontrar moléculas altamente relacionadas ao diabetes e aos problemas cardíacos, moléculas estas que podem, agora, servir de alvo para novos tratamentos e terapias para os seres humanos. Vistas desta forma, pensaremos duas vezes antes de ficarmos bravos com as mosquinhas rodeando as bananas na fruteira!

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  • Renato Pascoal

    Tão triste quanto ver uma criança de 10 anos com DM1, assim como meu filho, é saber que pesquisadores tem dificuldades em conseguir verba para pesquisas em busca da cura. GARANTO que, se as inovações fossem ligadas ao ‘campo’ estético certamente estariam com cofres recheados.
    Temos administradores públicos passívos no tratamento do DM1, além do constrangimento em percorrer longas filas, enfrentar servidores mal educados, ainda tem grandes chances de mensalmente não conseguirem as insulinas. Que sociedade é essa? Que nojo tudo isso me trás… Mas não tenho outra alternativa senão acreditar que amanhã ao acordar vão chorar é de alegria com ‘boas novas’ na cura dessa doença.

    Atenciosamente um pai, que daria o corpo inteiro em prol da cura do pâncreas do seu filho.

  • DiabetiCool

    Olá, Renato

    De fato, o campo das pesquisas em relação ao diabetes precisaria de muito mais financiamento e talentos trabalhando ativamente para que a ‘cura’ viesse mais cedo. Todavia, a quantidade de ótimos pesquisadores dando duro todos os dias nesta área, em todo o mundo, e tendo ótimas idéias a fim de resolver o problema do diabetes nos enchem de esperanças. Por isso acompanhamos constantemente as novidades científicas – boas notícias sempre chegam!

    Equipe Diabeticool