Forxiga e Invokana – Evolução no tratamento do diabetes

33

Novidades nas prateleiras das farmácias, Invokana e Forxiga (este já à venda no Brasil) são inovações poderosas na luta pelo controle da glicemia.

forxiga invokana diabetes

Dois novos medicamentos para combater o diabetes estão chegando no mercado. Desde o início de 2014, o Forxiga já está à venda no Brasil; ainda esperamos a liberação do outro medicamento, o Invokana. Ambos são os pioneiros de uma nova série de antidiabéticos com grandes promessas de melhorar a qualidade de vida dos usuários, devido ao poucos efeitos colaterais, à alta efetividade no controle da glicemia e aos efeitos secundários benéficos – como a perda de peso.

 

EM DETALHES

O Invokana é um medicamento à base do princípio ativo “canagliflozina”, produzido pela Janssen e comercializado pela Johnson & Johnson. O Forxiga (cujo princípio ativo é a dapagliflozina), é produzido e distribuído pela farmacêutica AstraZeneca.

O Forxiga é vendido na Europa desde o final de 2012 e nos EUA desde 2013. O Invokana passou a ser vendido na metade do ano passado nos EUA e Europa. Há poucos dias, a FDA (espécie de “ANVISA” dos EUA) aprovou a criação de versões genéricas do Invokana para comercialização nos EUA, confirmando que confia na eficácia do medicamento.

Aqui no Brasil, uma caixinha de Forxiga com 30 comprimidos (para um mês de tratamento) pode ser encontrada por cerca de R$120.

 

A maneira como os novos medicamentos surgiram é muito interessante e vale uma pequena digressão.

Existe uma doença chamada glicosúria, muito comum de aparecer em vários indivíduos de uma mesma família. A glicosúria nada mais é que a eliminação de açúcares pela urina (que normalmente não contém açúcar nenhum). Quem tem glicosúria em geral é magro e tem menos chances de desenvolver diabetes tipo 2, já que qualquer excesso de açúcar no sangue é eliminado junto com o xixi. Sabendo disto, desde os anos 1980 médicos e cientistas têm tentando “imitar”, através de medicamentos, a glicosúria. Se o problema de quem está com diabetes é ter açúcar demais no sangue, por que não mandá-lo embora junto com o xixi?

Após décadas de testes e experimentos, hoje a Ciência encontrou duas drogas (a “canagliflozina” e a “dapagliflozina”) com capacidade de imitar, de maneira segura e controlada, a glicosúria. Elas inibem a ação da molécula SGLT2, responsável pela reabsorção do açúcar nos rins. Desta forma, quem toma algum destes remédios consegue controlar melhor a quantidade de açúcar no sangue ao eliminar o excesso através da urina.

Mas como o Forxiga e o Invokana funcionam? Quais as grandes diferenças entre eles? É verdade que eles ajudam a perder peso? O Diabeticool conversou com o dr. Luciano Giacaglia, médico endocrinologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, sobre as maiores dúvidas que intrigam a comunidade diabética quanto a estes novos medicamentos. Acompanhe a seguir.

medicamento sglt2 diabetes

O Forxiga e o Invokana foram criados para aumentar a eliminação de açúcar através da urina.

 

COMO FUNCIONAM O INVOKANA E O FORXIGA?

Ambos os novos medicamentos ajudam a diminuir a glicemia ao eliminar, através da urina, o excesso de açúcar no sangue (se quiser saber em maiores detalhes os mecanismos de ação do medicamento, clique aqui).

Quando o sangue é filtrado pelos rins, praticamente todo o açúcar volta à corrente sanguínea, sendo reabsorvido por moléculas como a SGLT2 (responsável por 90% da reabsorção). É fácil de entender que, quando voltam à circulação, os açúcares mantém a glicemia alta. Os novos medicamentos ajudam a bloquear a ação da SGLT2, consequentemente diminuindo a glicemia.

Tanto o Invokana quanto o Forxiga são tomados apenas 1 vez ao dia, normalmente sendo administrados em conjunto com outros antidiabéticos, como metformina ou a insulina. Médicos podem prescrevê-los para serem tomados sozinhos também, em casos menos severos da doença. Por enquanto, são comprovadamente seguros para uso apenas por diabéticos do tipo 2.

 

EXISTEM DIFERENÇAS ENTRE ELES?

Basicamente, o Forxiga e o Invokana são medicamentos iguais. As semelhanças entre os dois superam, em muito, as diferenças.

Todavia, o dr. Giacaglia explica que o Forxiga é um inibidor altamente específico de SGLT2, enquanto que o Invokana inibe também parte das moléculas SGLT1. Com isto, pode ser que haja alguns efeitos colaterais adicionais no caso do Invokana. Até agora, porém, nada foi definitivamente comprovado. 

 

MUITA GENTE TEM INVOCADO COM O INVOKANA

Desde os primeiros testes clínicos, alguns dos efeitos colaterais do Invokana haviam se mostrado preocupantes. No início do ano passado, a FDA apontou indícios de que o medicamento poderia induzir problemas cardíacos, piora nos níveis do colesterol ruim e disfunções renais.

Uma ampla série de testes clínicos foram realizados e, hoje, a maior parte destes medos já foi descartada. Atualmente, sabe-se que, de fato, existem alguns efeitos colaterais pouco comuns do uso do Invokana, mas eles estão restritos a infecções urinárias e bucais.

Apesar das desconfianças iniciais, os novos estudos clínicos positivos resultaram num aumento do número de países que tem aprovado o uso do Invokana para pacientes diabéticos. A Inglaterra, Escócia e País de Gales entraram na lista no final do mês passado. Segundo um funcionário do governo escocês, o novo medicamento ajudará a controlar “esta epidemia mortal que é o diabetes, um dos maiores desafios que o nosso país enfrenta na área da saúde”.

 

OS EFEITOS COLATERAIS CONHECIDOS

Assim como o Invokana trouxe uma parcela de medo em relação a possíveis problemas cardíacos, o Forxiga também foi exaustivamente testado até que seu uso fosse considerado seguro. Quanto a estes riscos ao coração, o dr. Giacaglia explica que os novos medicamentos antidiabéticos ainda não apresentam dados sólidos que confirmem um benefício em relação à saúde do órgão. Se não há nenhum benefício comprovado, também não há malefícios óbvios apontados nos estudos.

Alguns dos usuários dos novos medicamentos tiveram infecções urinárias, causadas usualmente por fungos, que se proliferam devido ao excesso de açúcares eliminados no xixi. Giacaglia lembra que, em geral, estas infecções são “de leve intensidade, facilmente tratadas e na maioria das vezes não é necessária a suspensão da droga”. O endocrinologista ainda ressalta que quem está com diabetes (e com a glicemia alta) já tem chances maiores de adquirir infecções urinárias, e que a melhora na glicemia gerada pelos medicamentos pode, com o tempo, combater as infecções.

E quanto à saúde dos rins? Se o uso tanto do Forxiga quanto do Invokana resulta em “mais trabalho” para os rins, será que os órgãos não ficam comprometidos? Esta é uma pergunta válida e muito analisada na literatura médica. Nenhum dos dois medicamentos é indicado para pessoas que já tenham a função renal debilitada. Mas, para quem tem os rins saudáveis, eles não apresentam grandes riscos. O dr. Luciano explica que, se lembrarmos dos casos “naturais” de glicosúria, estas pessoas não costumam ter problemas renais graves por pausa da eliminação de açúcar na urina.

 

É VERDADE QUE ELES AJUDAM A PERDER PESO?

Além de baixar a glicemia, o Invokana e o Forxiga também têm a fama de ajudar a perder peso. A glicose eliminada pela urina significa, além de menos açúcar na corrente sangüínea, que há também menos calorias a serem acumuladas no organismo. Será que, então, eles são emagrecedores?

dr luciano giacaglia diabetes

O endocrinologista Luciano Giacaglia, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, respondeu às maiores questões sobre os novos antidiabéticos.

Giacaglia explica que, de fato, a eliminação de açúcar pelos rins ajuda a perder peso, mas que este efeito é transitório. “Estas drogas promovem a liberação de 40-100g de glicose ao dia, e sabendo que cada grama de glicose contem 4Kcal, isto promoveria uma perda diária de 160 a 400Kcal. A perda de peso acaba sendo maior quanto maior a glicemia do indivíduo”, conta.

“No entanto, quando fazemos a conta a longo de vários meses de tratamento, observamos que a perda de peso é menor do que a esperada.” O motivo, segundo o médico, é que muitas pessoas acabam compensando a perda de peso com a ingestão de mais comida. “Então se pensarmos em utilizar esta medicação com o intuito de redução do peso teremos que abordar conjuntamente o controle do apetite”.

 

UM FUTURO PROMISSOR

Vivemos em uma época repleta de evoluções e novidades positivas no tratamento do diabetes. O Invokana e o Forxiga chegam para aumentar ainda mais a qualidade de vida de quem está com a doença e são opções seguras e práticas de controle da glicemia. Os novos medicamentos são a prova de que o futuro está, felizmente, chegando bem rápido para quem acompanha o desenvolvimento médico. Controlar o diabetes nunca foi tão fácil – e a promessa é que fica ainda mais tranqüilo nos próximos anos! 

Com colaboração de Ricardo Schinaider de Aguiar

 

Compartilhe!