Diabetes: a prevenção é possível

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Um bom controlo da diabetes pode, em larga medida, evitar ou atenuar complicações. Foto: photoeditorvision/Flickr

Portugal posiciona-se entre os países europeus que registam uma das mais elevadas taxas de prevalência da diabetes. Em 10 anos, o número de casos aumentou 80%. Atualmente, 12,7% dos portugueses entre os 20 e os 79 anos são diabéticos.

“A diabetes é um dos mais preocupantes problemas de saúde pública em Portugal e no mundo. Boa parte da preocupação é dirigida ao seu potencial de prevenção, pois sabemos que com algumas medidas simples, embora nem sempre fáceis, será possível evitar muitos dos casos de diabetes e, uma vez esta presente, muitas das suas temidas consequências”, explica Pedro Melo, médico endocrinologista.

Sabe-se, por exemplo, que perto de 90% da população com diabetes apresenta excesso de peso ou obesidade (estudo PREVADIAB). Verifica-se, ainda, que uma pessoa obesa apresenta um risco três vezes superior de desenvolver diabetes do que uma pessoa com peso normal. Mas desengane-se quem pensa que esta doença é sinónimo de excesso de peso.

Esta doença deve-se a “um conjunto complexo de alterações metabólicas que envolvem défice de produção da insulina, ou produção insuficiente de insulina face às necessidades do organismo, ou desregulação de outras hormonas que contrariam a ação da insulina. Se os níveis de insulina não são suficientes para as necessidades, existe um aumento dos níveis de glicemia no sangue”.

O que provoca o aumento da glicose no sangue é uma discrepância entre a insulina segregada pelas células beta dos ilhéus de Langerhans do pâncreas e as necessidades do organismo, em função da glicose no sangue, proveniente dos alimentos que ingerimos.

O problema é que “ninguém vive sem insulina. Sem insulina, a glicose não entra nas células. A glicose é fonte de energia das células. Se não houver insulina, as células não funcionam e morrem”.

Muitas vezes, porém, a diabetes, sobretudo a de tipo 2, não atinge níveis de glicemia que deem sintomas, o que contribui para o seu diagnóstico tardio.

 

As complicações

Como explica o especialista, a diabetes é diagnosticada “através de alterações nos níveis de glicemia, designadamente uma glicemia em jejum, numa prova designada por prova de tolerância à glicose oral ou por um parâmetro analítico que é a hemoglobina glicada (A1c). Um valor único, a menos que haja sintomas, não serve para diagnosticar”.

Sendo a diabetes caracterizada por níveis glicémicos elevados, diz o endocrinologista, “os órgãos e tecidos são expostos a este excesso de glicose, desenvolvendo um conjunto de alterações que se enquadram no que designamos por complicações crónicas. Muitas vezes esta é, infelizmente, a face visível da diabetes, que se manifesta em situações como: doença cardiovascular (como, por exemplo, o enfarte do miocárdio), doença cerebrovascular (como os acidentes vasculares cerebrais, comummente chamadas ‘tromboses’), doença vascular periférica (levando a problemas de irrigação sanguínea nos membros inferiores que podem levar a lesões graves), nefropatia (doença renal da diabetes), neuropatia (doença que geralmente afeta os nervos periféricos e que pode provocar perda de sensibilidade, entre outras alterações), ou retinopatia (doença ocular que, se não controlada, pode causar perda de visão)”.

Mas o que é mais relevante nestas complicações é que um bom controlo da diabetes pode, em larga medida, evitar ou atenuar estas complicações.

 

Diabetes 1 ou 2

Embora existam múltiplas formas de diabetes, as mais comuns podem ser classificadas em duas categorias principais: tipo 1 e tipo 2. “A diabetes tipo 1 (que anteriormente foi designada por insulinodependente) caracteriza-se por uma destruição, habitualmente de tipo autoimune, mas que poderá ser idiopática (sem causa conhecida), das células produtoras de insulina. Quando isto acontece, o organismo é incapaz de produzir insulina ou produz muito menos do que seria necessário”, esclarece Pedro Melo.

Já na diabetes tipo 2, “em fases iniciais da doença, a produção de insulina até pode ser superior ao normal, mas as necessidades estão muito aumentadas. Os estudos apontam para que a própria célula beta se encontre disfuncional pelo que, com a progressão da doença, a mesma entra em falência”.

Em fases iniciais, “a dieta e atividade física regular podem ser suficientes para controlar a doença, embora seja pertinente iniciar simultaneamente um fármaco. Nunca é de mais sublinhar a importância do estilo de vida adequado, e da sua correção, pois o mesmo pode fazer – e faz muitas vezes – a diferença entre ter ou não ter diabetes, e entre ter uma diabetes que é apenas um diagnóstico sem outras consequências ou ter uma doença grave, incapacitante e potencialmente fatal”.

Num segundo passo na abordagem terapêutica, “quando se verifica que o controlo continua insuficiente ou se agravou, pode ser preciso recorrer a mais medicação específica e, em certos casos, ao uso da insulina”.

A este propósito “torna-se fundamental gerir as expectativas, dos médicos e dos doentes, com alguma tranquilidade, pois sabemos que muitos tratamentos só fazem sentido num número restrito de pessoas, outros são claramente experimentais e podem nunca ser disponibilizados, outros ainda vão demorar bastante tempo a estarem prontos para uma utilização mais alargada”.

Assim sendo, e enquanto se espera pelos novos desenvolvimentos, “é fundamental adotar uma perspetiva realista, ainda que com justificado otimismo, mas, sobretudo, mantendo a diabetes o mais controlada possível de forma a evitar o aparecimento ou o agravamento das suas complicações”.

Fonte: JPN

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