A História do Diabetes – Parte 3 – Como usar a insulina?

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Na 3a parte da História do Diabetes, Ronaldo Wieselberg conta como foram os primeiros testes com a insulina e os excitantes dramas pessoais por trás das pesquisas!

POR RONALDO WIESELBERG

No último capítulo da nossa viagem conhecemos os dramas do Dr. Frederick Banting durante a descoberta da insulina, e como ele passou o Natal de 1921 sozinho, após o Dr. James Collip isolar a substância – como você pode ler aqui.

Enquanto isso, existiam alguns outros personagens no mundo do diabetes nessa época. Um deles era o Dr. Frederick Allen, um dos maiores especialistas em diabetes do mundo, juntamente com o Dr. Elliott Joslin. Enquanto Allen acreditava na terapia da inanição como a solução definitiva para o diabetes, Joslin acreditava que essa terapia era muito mais danosa aos pacientes do que benéfica, e sempre acreditou em educar o paciente para que ele soubesse o que evitar, enquanto restringia a alimentação de maneira mais “humana”.

Ao contrário do que possa se pensar, Allen tratou inclusive a filha de um dos Secretários de Estado – algo como Ministro das Relações Exteriores – dos Estados Unidos, na época. Inclusive, esse político, Charles Evans Hughes, visitou o Brasil por volta da época da descoberta da insulina!

Allen e Joslin não eram inimigos, muito pelo contrário. O fato de divergirem em muitas das opiniões alavancou muitos estudos que realizaram com pacientes, de maneira a entender melhor a doença. Allen, inclusive, tinha escrito, graças a essa relação, um livro que era considerado “a Bíblia do Diabetes”, na época, enquanto Joslin também tinha escrito um livro que era uma referência para médicos que tratavam diabetes.

elliott joslin and frederick allen diabetes

Da esquerda para a direita, Elliott P. Joslin e Frederick M. Allen, à época, os dois maiores especialistas em diabetes do mundo.

UMA CONFERÊNCIA QUE MUDOU A HISTÓRIA

Entre 28 e 30 de dezembro de 1921 – três dias depois do fatídico Natal de Banting – ocorreu o Encontro da Sociedade Americana de Fisiologia. A notícia da descoberta de uma substância que baixava a glicemia tinha corrido como fogo em palha seca. A equipe de Banting – composta, até então, por quatro pessoas: ele mesmo, Macleod, Best e Collip – tinha praticamente dobrado.

Esse aumento de pessoal era destinado a purificar o extrato e tornar possível o uso em seres humanos o mais rápido possível. Banting e sua equipe estavam começando a testar o extrato de pâncreas de boi e de porco, e os resultados estavam sendo bastante satisfatórios.

Durante a conferência, Banting se sentia muito nervoso. Ele nunca fora um acadêmico, sempre fora um homem prático. E agora, se via prestes a apresentar um trabalho revolucionário perante uma sociedade nacional. Por mais que ele tivesse assistido às palestras dos outros colegas para ganhar traquejo, os murmúrios que ouvia sobre “um trabalho revolucionário feito no Canadá por um tal de Dr. Banting” o deixavam cada vez mais ansioso.

Na sexta-feira – que, curiosamente, era 30 de dezembro, e não 13… – a sala de apresentações estava lotada. Frederick Allen estava lá, junto com Elliott Joslin. Alec Clowes, o representante da empresa farmacêutica Eli Lilly também estava lá, interessado nessa descoberta. A menor falha nos experimentos seria percebida por todos os especialistas ali.

Uma vez que nem Banting, nem Best eram membros da sociedade, Macleod começou a palestra. Sendo sincero, ele também percebeu que Banting estava tremendo feito vara verde, e não conseguiria falar diante daquele monte de médicos. Durante a introdução, o que chamou a atenção de Banting era que Macleod sempre falava em “nosso” trabalho – e cada vez que isso acontecia, ele se lembrava do calor infernal de agosto e setembro em que ele e Best trabalharam, enquanto Macleod estava sentado confortavelmente em sua mesa.

Macleod chamou Banting para falar sobre o trabalho, mas o nervosismo era tanto que, pouco a pouco, Fred foi emudecendo. No final, sua voz era um murmúrio, e ninguém percebeu quando a palestra tinha acabado. Apenas quando Macleod se levantou e agradeceu, houve uma rodada rápida de aplausos.

Enquanto os médicos cercaram Macleod, bombardeando-o com perguntas, Alec Clowes se aproximou de Banting e Best. Ele ofereceu, em nome da Eli Lilly Company todas as condições para a purificação e produção em massa do extrato. Macleod, por sua vez, recusou, uma vez que a Universidade de Toronto tinha um laboratório próprio, que iria fabricar a insulina para uso humano.

Banting viu isso como uma traição terrível. Não tendo dinheiro para se manter no congresso após a palestra, ele voltou na mesma noite, de trem, para Toronto. A noite inteira ele se remoeu, pensando no quão triste e vil era aquilo.

 

BRIGAS, UM OLHO ROXO E O PRIMEIRO USUÁRIO DE INSULINA

Leonard Thompson diabetes

O garotinho Leonard Thompson, primeiro diabético tipo 1 a ser tratado com insulina.

Em 11 de janeiro de 1922, Leonard Thompson, um menino canadense que à época consumia apenas 450 kcal diárias – o normal para um ser humano saudável é 2000 kcal – recebeu uma dose do mesmo extrato usado em cães – purificado ao máximo. Era a metade da dose que um cachorro de mesmo peso receberia, e por isso, a queda na glicemia foi inconclusiva. Parecia ter funcionado, mas ninguém arriscava o pescoço naquela ideia.

Em 14 de janeiro do mesmo ano, um artigo no Toronto Daily Star, o jornal mais importante da região, dizia, em letras garrafais “Trabalho em Diabetes mostra Sucesso Contra a Doença”. Novamente, Macleod usara os termos “nós” e “nosso trabalho”, o que enfureceu Banting.

Em 16 de janeiro, Collip conseguiu purificar a insulina, e foi dar as boas novas a Banting. De tão enfurecido que estava, Banting atirou Collip ao chão, gritando que agora, sim, a substância seria chamada de “soro de Collip”. Entristecido e desapontado, Collip foi pedir a demissão sumária de Banting. Porém, o reitor da universidade disse que a culpa era de Macleod, que não tinha conseguido um bom relacionamento com os membros da equipe.

Em 23 de janeiro, o mesmo Leonard Thompson recebeu uma dose do extrato purificado de Collip. A glicemia dele baixou – em valores utilizados hoje – de 520mg/dl para 120mg/dl.

Em 25 de janeiro, a equipe de Banting teve uma reunião. Banting parecia destroçado fisica e mentalmente. Collip tinha vestígios de um olho roxo. Macleod estava sob pressão da Eli Lilly, da reitoria da universidade, e até do presidente do Canadá. Best tentava segurar as pontas, mas nada estava dando certo. Todo o trabalho estava por um fio.

Em fevereiro, Banting sucumbiu às pressões. Entrou no laboratório e pegou uma garrafa de álcool 95%. Bebeu num béquer – o “copo” usado para os experimentos. Best o encontrou, praticamente desmaiado no laboratório, no dia seguinte, e não pôde fazer nada além de deitar o parceiro em uma cama. Banting era o pior inimigo de si mesmo.

Em março, com a publicação de dois artigos – tendo como autores Banting e Best, nada de Macleod ou Collip até o momento – em periódicos científicos respeitáveis, esperava-se um retorno de Banting. Ele não voltou. Best, então, foi procurá-lo.

Best encontrou Banting bêbado, em casa. Apesar dos apelos, Banting se recusava a voltar para a pesquisa. Best, então, pela primeira e única vez, deixou a raiva fluir. Gritou com Banting, arrancou o béquer de suas mãos e o arrebentou contra a parede. Gritou sobre as crianças que seriam salvas, e agora, sem Banting, morreriam sem a insulina. Com a discussão, Best disse que também sairia da pesquisa.

Na manhã seguinte, 1º de Abril, Banting acordou e viu o caderno de Best aos pés de sua cama. Ele se lembrou de alguns pontos da discussão e sentiu-se culpado pela saída provável de Best e por tudo o que tinha falado sob efeito do álcool.

Em 3 de abril, com a saída de Collip da Universidade de Toronto, Best assumia o departamento de Bioquímica, e registrava a patente da insulina, vendendo-a para a universidade pela soma simbólica de um dólar. Macleod reconheceu que errou com a Eli Lilly Company e com Banting.

Best foi o elo da corrente que não se partiu. Graças a ele, a pesquisa continuou.

 

O ‘MILAGRE’ DA INSULINA

Allen e Joslin estavam deslumbrados com os resultados da insulina. Allen foi o médico que mais auxiliou os experimentos com pacientes em 1922, usando a insulina em 161 pacientes. A empresa Eli Lilly Company foi a primeira a conseguir um suprimento constante de insulina no mundo.

Em agosto de 1922, Allen fez o primeiro experimento com insulina em seus pacientes. Seis crianças, em coma, todas pesando menos da metade do que deveriam pesar. Injetou insulina na primeira criança, e nada aconteceu. Injetou insulina na segunda criança, e nada aconteceu. Nada na terceira. Nem na quarta. Nem na quinta. Quanto injetou a insulina na última criança, e estava pronto para dizer àquelas mães, sofridas, que nada mais restava, a primeira criança começou a acordar.

Um arrepio passou pela espinha do médico. Era quase como a ressureição de Lázaro, da Bíblia. Era um milagre da medicina. A “cura” tinha chegado. Diabetes não seria mais uma doença mortal.

 

JUNTO À INSULINA, EIS A HIPOGLICEMIA!

Joslin sentiu-se honrado com a possibilidade de usar a insulina. Durante o uso, dedicou-se, então, a estudar a insulina, seus efeitos e como poderia melhorara vida das pessoas com diabetes.

Então, surgiu, diante do uso da insulina, uma complicação ainda mais terrível: hipoglicemias. Com o uso indiscriminado da insulina, por vezes a glicemia caía abaixo dos níveis normais – hoje, sabemos que hipoglicemia é quando a glicemia cai abaixo de 70mg/dl – e até aquele momento, ninguém sabia da existência de hipoglicemias, quanto mais do tratamento.

Joslin foi o primeiro a sugerir o uso de suco de laranja – ótima fonte de açúcar! – como tratamento, e foi um padrão por muito tempo. Ele se tornou o maior especialista em diabetes do mundo, graças à sua disposição em estudar os efeitos daquela nova substância descoberta por Banting aplicados aos seus conhecimentos desenvolvidos junto com Allen.

 

O MAIOR RECONHECIMENTO CIENTÍFICO

Em setembro de 1922, Banting e Macleod foram indicados ao Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Sabendo que caso a hostilidade dentro da equipe fosse descoberta as chances seriam nulas, Banting fez o impossível para aguentar sua fúria.

Um dos cientistas que avaliaram a descoberta de Banting, August Krogh, voltou para a Dinamarca com a fórmula para fabricar a insulina. Ele fundou, então, a Nordisk Insulin Laboratorium, pioneira na Europa a produzir insulina.

Em 1923, Banting e Macleod foram laureados com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, pela descoberta da insulina. Foi o primeiro Prêmio Nobel do Canadá, e até hoje, a nota de 100 dólares canadenses mostra um frasco de insulina.

Banting, é claro, ficou furioso que Best fora esquecido, e dividiu sua parte do prêmio com ele. Macleod não teve outra saída senão dividir sua parte, também, com Collip.

nobel prize banting macleod diabetes

O diploma que confere o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1923 a Frederick G. Banting e John J. R. Macleod.

Em 1929, Allen sofreu um revés financeiro incalculável. Suas economias estavam em ações da Bolsa de Nova York, que quebrou. Seu instituto para o estudo do diabetes faliu, e ele caiu no esquecimento.

Joslin dedicou sua vida ao tratamento do diabetes, educação e pesquisa, fundando o Joslin Diabetes Center, afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard. Ele também fundou o primeiro acampamento para jovens com diabetes, modelo seguido inclusive no Brasil, com o Acampamento ADJ-Unifesp-NR, em São Paulo e com o Diabetes Weekend, em Minas Gerais.

Joslin manteve o registro dos exatos 58 784 pacientes que tratou ao longo de sua vida. Sua frase mais famosa foi reproduzida milhares de vezes ao redor do mundo:

“Educação não é parte do tratamento do diabetes. Educação É o tratamento.”

 

O QUE ACONTECEU COM CADA UM DOS PERSONAGENS

Charles Best continuou seus estudos em Fisiologia, descobrindo inclusive a histaminase e a lecitina, duas substâncias importantes do metabolismo, e estudou os efeitos da colina no organismo. Ele substituiu Macleod como professor de Fisiologia na Universidade de Toronto aos 29 anos.

James Bert Collip perdoou Banting pelos incidentes, e eles acabaram se tornando bons amigos. Ele continuou suas pesquisas em endocrinologia, e conseguiu trabalhar isolando o paratormônio, um hormônio secretado pels paratireoides, e o hormônio adrenocorticotrófico, secretado pela hipófise. Ele foi o sucessor de Banting no Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá.

John James Rickard Macleod sofreu em silêncio o resultado da ira de Banting. Conforme a popularidade de Banting crescia, a de Macleod caía. Em 1928 ele deixou a Universidade de Toronto, voltando para a Escócia, sua terra natal, como Professor Pleno de Fisiologia na Universidade de Aberdeen. Ele nunca comentou os anos que passou no Canadá.

Frederick Grant Banting fundou a Fundação Banting de Pesquisa com o dinheiro do Prêmio Nobel, que ajudou, inclusive, a projetar partes do traje anti-gravidade dos astronautas americanos, além de guerra química e biológica. Em 1941, mesmo contra os apelos do governo do Canadá, ele embarcou em um avião para a Inglaterra, para atuar como médico durante a Segunda Guerra Mundial. O avião caiu momentos após a decolagem, e Banting não suportou os ferimentos, morrendo ao lado de Collip, no hospital, naquela mesma noite.

Até hoje, cartas e postais são endereçados ao Dr. Frederick Banting, aquele que teve a ideia e lutou contra todas as dificuldades para descobrir aquela que foi a salvação de todas as pessoas com diabetes ao redor do planeta.

postal card to doctor banting insulin diabetes

Postal para o Dr. Banting, datado de 1924. Diz “Caro Dr. Banting, eu sou uma garotinha no Texas que está recebendo Iletina [o primeiro nome comercial da Insulina]. Ela está fazendo eu me sentir melhor e eu estou muito feliz. Eu queria agradecer ao senhor. Um feliz Natal. Betsy Adylance, Galveston, Texas”.

O tratamento do diabetes não se restringiu apenas à insulina. Ele ainda dependia de testes de urina, e agora, o perigo de hipoglicemia era constante. Outros médicos se dedicaram muito às pesquisas, inclusive porque alguns pacientes pareciam reagir mal à insulina… Mas isso é uma história para o nosso próximo capítulo…

 

ronaldo wieselberg perfil diabeticoolRonaldo José Pineda Wieselberg tem diabetes há mais de 20 anos. É estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP), auxiliar de coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes da ADJ Diabetes Brasil e Jovem Líder em Diabetes pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), com trabalhos sobre diabetes premiados e apresentados no Brasil e no exterior. Apesar de ter o mesmo nome de vários grandes jogadores de futebol, prefere o xadrez.
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